Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Borba Gato e outros bandeirantes foram transformados em ‘heróis’ por movimento político há 100 anos

Ideia era mostrar que São Paulo foi berço da expansão territorial brasileira; crimes, abusos e violência já eram conhecidos na época

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 10h00

Os bandeirantes foram transformados em símbolos de São Paulo há cerca de 100 anos por um movimento intelectual, cultural e político de resgate do que seria uma imagem heróica de São Paulo como a terra de “desbravadores” e responsável pela expansão territorial brasileira. A ideia era destacar o papel do Estado em meio a outros de maior destaque econômico e histórico no País, como apontaram especialistas ao Estadão.

Chamados de paulistas ou sertanistas no século 17, os bandeirantes faziam expedições financiadas por grandes comerciantes e donos de terras atrás de minérios, indígenas para serem escravizados e pessoas escravizadas fugidas. Por vezes, chegaram até mesmo a invadir missões jesuíticas atrás de indígenas para sequestrar, tanto que eram vistos como mercenários e com temor.

(A valorização do bandeirante) Era uma maneira de superar as outras capitais. São Paulo era mais pobre, não tinha igrejas, nem fortalezas, mas tinha esses ‘heróis’”, explica o historiador e professor do Museu Paulista, Paulo Garcez Marins. “Era uma espécie de resposta de artistas, intelectuais e políticos para enaltecer o passado colonial de São Paulo. E é a partir dessa construção imaginária que o bandeirante que vai assumir essa persona de herói.”

Professor do Departamento de História da Unesp, Paulo Henrique Martinez explica que, embora a violência, os crimes e os interesses econômicos dos bandeirantes fossem “bastante conhecidos”, esses fatos eram deixados de lado nas ações de construção da memória desse grupo. “Não há o que justifique, às vésperas do centenário da Semana de Arte Moderna e do bicentenário da independência, que esse imaginário do bandeirismo sobreviva e tenho o enraizamento social que tem até hoje, uma vez que ele é indutor e legitima práticas de exclusão, opressão e violência social.”

Ao longo de cerca de 100 anos, Fernão Dias, Anhanguera, Raposo Tavares, Borba Gato e outros nomes foram colocados em monumentos, vias, rodovias e até no palácio do governo estadual. Tais homenagens passaram a ser criticadas, contudo, mais fortemente nos últimos anos, especialmente em São Paulo.

Um dos principais alvos de críticas é a estátua de Borba Gato, na zona sul da cidade de São Paulo, incendiada no sábado, 24, e local de protestos em outras ocasiões. Ela homenageia Manuel de Borba Gato, bandeirante nascido em 1674 na região onde hoje fica o distrito de Santo Amaro. 

Borba Gato era genro de outra liderança bandeirante, Fernão Dias, e morreu por volta de 1717, quando exercia o cargo de juiz ordinário na Vila Real de Sabará. Ele participou de expedições no interior do País e chegou a ficar foragido ao ser acusado de assassinato do administrador-geral de minas D. Rodrigo de Castelo Blanco entre 1682 e 1700, ano que recebeu o perdão real e foi nomeado guarda-mor do distrito de Rio das Velhas. 

Além disso, foi fundador da Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabarabussu (atual município mineiro de Sabará), em 1711, uma das principais produtoras de ouro para a coroa portuguesa. Também foi uma das lideranças da Guerra dos Emboabas (1707-1709), na qual, junto de outros paulistas, reivindicou a exploração exclusiva de minério em uma região de Minas Gerais, perdida para os portugueses.

A estátua em sua homenagem em São Paulo foi inaugurada em janeiro de 1963, já em meio a críticas (em grande parte estéticas), durante os festejos do IV Centenário de Santo Amaro. Na data, pessoas também desfilaram vestidas de bandeirantes e indígenas, com carros de boi, canoas e outros elementos figurativos. 

A obra havia sido encomendada cerca de seis anos antes pelo governo ao artista Julio Guerra, que utilizou concreto, trilhos de bonde e pedras coloridas de basalto e mármore. Ela tem cerca de 13 metros de altura e 20 toneladas e fica sobre um pedestal revestido de granito rústico.

Além do incêndio no último sábado, o monumento foi alvo em 2020 de uma intervenção em que foram colocados crânios falsos no seu entorno. Também foi atingido por tinta quatro anos antes em uma ação que também envolveu o Monumento às Bandeiras, no entorno do Parque do Ibirapuera. 

Resgate. O historiador Paulo Garcez Marins explica que todos os monumentos, pinturas e assemelhados que ajudaram a criar o imaginário bandeirista foram feitos sem nenhuma referência histórica, de imagens ou documentos que indicassem o tipo de vestimenta e a aparência dessas figuras. Entre esses elementos que se tornaram padrão, estão o chapéu de aba larga, a bota de cano alto, o gibão, a barba e os traços europeus, presentes inclusive na estátua de Borba Gato.

“O Museu Paulista (mais conhecido como do Ipiranga) tem lugar na consolidação da imagem que reconhecemos como sendo de um bandeirante, a partir das encomendas de pinturas e esculturas de fez”, comenta. Essas encomendas foram feitas principalmente por  Affonso Taunay, que dirigiu o Museu Paulista a partir de 1917 e um dos possíveis responsáveis por cunhar o termo “bandeirante”. Entre elas, está, por exemplo, “Ciclo da Caça ao Índio”, de Henrique Bernardelli, em que um bandeirante aparece em pose imponente no meio da mata em frente a indígenas.

Professor do Departamento de História da Unesp, Paulo Henrique Martinez explica que o resgate mais ostensivo dos bandeirantes foi liderado por um grupo derivado da Semana de Arte Moderna de 22, conhecido como Movimento Verde e Amarelo ou Escola da Anta, de valores nacionalistas. Ele era liderado por Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Cândido Mota Filho, Alfredo Élis e Plínio Salgado, expoente mais extremista do grupo e criador do movimento integralista, de fascistas. 

Entre as formas de perpetuar o imaginário heróico dos bandeirantes, estava justamente a representação pictórica em pinturas e estátuas de grandes proporções. “Alfredo Élis tinha a ideia de que os bandeirantes eram gigantes e, por consequência, os paulistas da colônia e depois da nação também”, comenta o professor. 

“Esse grupo Verde e Amarelo, embora tenha perdido a disputa no campo estético e artístico (para o liderado por Mário e Oswald de Andrade), triunfou no campo histórico e interpretativo da história, na representação simbólica da história de São Paulo, feita pelos grandes homens conquistadores, gigantes físicos, gigantes de alma, gigantes de ambição", comenta. 

"E poderíamos acrescentar: gigantes de violência, gigantes de cobiça…", completa o professor. Martinez explica que a construção da memória bandeirante teve apoio estatal desde os anos 20 até mais recentemente, o que explica a presença ostensiva em nomes de espaços públicos, monumentos e afins.

Em grande parte, foi fortalecida em momentos em meio a crises sociais e políticas, em resposta ao fortalecimento de movimentos operários, de classes e sindicais, como nos anos 20, 50 e 60 do século passado. Na época da inauguração da estátua de Borba Gato, por exemplo, o País vivia um fortalecimento das ligas camponesas, o crescimento dos movimentos estudantil e operário e a votação do plebiscito sobre o sistema de governo nacional.

Casas culturais que homenageavam bandeirantes foram rebatizadas em SP

Ao menos dois espaços culturais municipais integrantes do Museu da Cidade foram rebatizados e tiveram retiradas as referências bandeirantes nos últimos dois anos. A Casa Sertanista passou a se chamar Casa Caxingui, enquanto a Casa Bandeirante agora é conhecida como Casa Butantã. Na época, o secretário municipal da Cultura, Alê Youssef, defendeu uma São Paulo mais modernista e menos bandeirante.

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