Bope confunde furadeira com arma e mata fiscal

Morador consertava toldo quando tomou tiro de fuzil; policial responderá por homicídio doloso

Bruno Boghossian, Pedro Dantas e Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

RIO

Um homem que segurava uma furadeira foi confundido com um traficante armado e acabou morto com um tiro de fuzil por um cabo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio. O fiscal de supermercados Hélio Ribeiro, de 46 anos, instalava um toldo no terraço de casa durante uma incursão policial em um dos acessos ao Morro do Andaraí, na zona norte da capital fluminense.

O cabo ? cuja identidade não foi confirmada ? se apresentou espontaneamente à 20.ª Delegacia, em Vila Isabel, e vai responder em liberdade por homicídio doloso (com intenção).

Segundo a família da vítima, o disparo foi feito de uma vila de casas vizinha ao apartamento de Ribeiro. A viúva, Regina Célia, disse que o marido foi atingido de frente e, em seguida, os policiais apontaram os fuzis para ela e ordenaram, gritando, que se deitasse no chão. Hélio segurava uma furadeira elétrica com fio que media cerca de 24 centímetros, de acordo com o modelo informado à Polícia Civil.

Ocupação. A Secretaria de Estado de Segurança informou que homens do Bope que ocupam o Morro do Borel, também na zona norte, foram chamados para investigar denúncias no Andaraí, onde uma equipe do 6.º Batalhão (Tijuca) fora recebida a tiros momentos antes. O comandante do batalhão, tenente-coronel Paulo Henrique de Moraes, classificou a ação como um "erro", mas disse que o policial pode ter disparado porque, "na avaliação dele, tudo indicava que era uma arma" e era necessário "proteger a equipe".

Na avaliação de policiais, em uma operação "de busca e captura" em favelas, como a realizada ontem no Morro do Andaraí para prender traficantes que fugiram do Morro do Borel após a ocupação do Bope, as decisões acontecem em frações de segundos. "Se a furadeira fosse uma arma e o cabo não atirasse, o policial é que estaria morto", disse um oficial.

O comandante do batalhão disse que o cabo será submetido a tratamento psicológico e afastado de operações nas ruas. A corporação informou que o agente está há dez anos na tropa e nunca teve desvios de conduta.

A delegada responsável pela investigação, Leila Goulart, disse que o cabo admitiu ter confundido a furadeira com uma arma. "O inquérito investiga o homicídio como doloso porque ele teve a intenção de atirar, mas houve um erro." /

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