Marco Antônio Carvalho
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Bombeiros mudam estratégia e passam a usar máquinas pesadas para retirar escombros

A decisão foi tomada por um colegiado de especialistas da corporação e segue, segundo eles, protocolos internacionais de buscas em estruturas colapsadas

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 04h47

Quarenta e oito horas após o incêndio que consumiu e derrubou o edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, o Corpo de Bombeiros começou a usar, na madrugada desta quinta-feira, 3, máquinas pesadas para retirar escombros da região central do terreno, visando a tornar mais ágil a atividade de busca por vítimas. Até agora, essas máquinas faziam a limpeza do entorno da área, enquanto buscas manuais e com cães farejadores eram realizadas.

A decisão de mudança de estratégia foi tomada por um colegiado de especialistas da corporação e segue, segundo eles, protocolos internacionais de buscas em estruturas colapsadas. Às 3h30 desta madrugada, a retroescavadeira, que até então havia passado a noite alimentando caçambas, foi reposicionada e começou a puxar para a rua pedaços grandes do amontoado de entulho formado pela queda dos 26 pavimentos. Outra máquina pesada age em outra frente, próximo a um templo da igreja Luterana, que também teve a estrutura afetada pelo desabamento.

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“A estratégia mudou. Já se passaram mais de 48 horas desde o início das buscas e protocolarmente é aceito o uso de maquinário pesado. A decisão ocorre pra que possamos retirar escombros com mais energia e velocidade”, disse o capitão Robson Mitsuo, que comanda a operação durante esta madrugada. “Isso não quer dizer que não vamos ter cuidado com as vítimas. As equipes estão dispostas no terreno, acompanhando o trabalho e, ao sinal de qualquer vítima, as máquinas vão parar para que o resgate possa atuar”, acrescentou.

Os bombeiros consideram que quatro pessoas podem estar sob os escombros. Além de um homem identificado como Ricardo, que caiu durante a tentativa de resgate na madrugada da terça-feira, parentes relataram que uma mulher com os dois filhos também estaria no local no momento do desabamento. Outros 40 moradores ainda têm paradeiro desconhecido, mas não havia confirmação de que estavam no local na hora do acidente. Ainda assim, os bombeiros consideram baixas as chances de encontrar algum morador com vida. “É muito improvável isso ocorrer. Vamos manter as esperanças, mas são condições incompatíveis com a vida”, disse o capitão.

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Mitsuo esclareceu que equipes dos bombeiros chegaram nesta quarta-feira ao subsolo do edifício, onde havia a expectativa de ter sido mantido uma espécie de bolsão de sobrevivência, menos afetado pela queda total da estrutura. Mas essa possibilidade restou descartada. “Furamos duas paredes de concretos e constatamos que as lajes estão praticamente coladas, descartando a possibilidade de existir um bolsão vital.”

Os trabalhos com as máquinas pesadas devem se estender ao longo desta quinta, podendo chegar até a próxima terça-feira, de acordo com previsões iniciais da corporação. Simultaneamente à remoção dos escombros, bombeiros continuam jogando água sobre a estrutura, numa atividade de resfriamento. Nesta madrugada, pequenos focos de incêndio voltaram a aparecer, mas o capitão Mitsuo disse ser uma característica normal desse tipo de incêndio. “O material inflamável permanece entre as camadas de laje e isso só vai cessar no final da operação.”

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Noite. A fumaça branca que sai da estrutura ainda era vista na noite desta quarta-feira na montanha de escombros formada pela queda do edifício. Desde a madrugada da terça-feira, bombeiros jogam água sobre a estrutura na tentativa de resfriar o amontoado de entulhos, cujo sinal de fumaça parece resistir.

Ao menos uma dezena de caminhões-caçamba da prefeitura e de empresas contratadas foram cheias com esse material durante a atividade de limpeza do entorno na noite de ontem. Com os braços sobre a grade que serve de divisória para a área de segurança, Ana Paula Aparecido, de 30 anos, assistia a tudo de perto. Estava no prédio quando o incêndio começou, um andar acima da suposta briga no 5º andar que levou ao início das chamas.

“Ouvi o povo gritando e alertando sobre o incêndio”, contou. Deu tempo de pegar a filha de 1 ano e descer com o marido pelas escadas. De baixo, na praça, se impressionou com a imagem do desmoronamento. “Agora vou ficar aqui até ver os bombeiros resgatarem o último. Eram amigos nossos e a gente merece essa satisfação de saber quem estava lá”, disse Ana. Para pagar os R$ 200 que era cobrado pelo andar que ocupava com outras 15 famílias, vende Trident e Halls na Avenida Paulista.

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Benção. Às 22h30, o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer apareceu nas imediações da área do desabamento. Aproximou-se da área do que chamou de “tragédia” e viu os bombeiros tentarem limpar a região próxima à igreja luterana, afetada pelo desabamento. “O templo tem um valor histórico para a comunidade Luterana, mas certamente será reconstruído. Gostaria aqui de expressar minha solidariedade com a comunidade”, disse.

Depois, seguiu para frente da igreja, onde numa área delimitada por cercas metálicas, estão as famílias que moravam no edifício que desabou. Realizou uma breve benção e elogiou as doações enviadas. “O povo de São Paulo é muito solidário. É uma tragédia e precisa de gestos bonitos como esse.”

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A movimentação no cercadinho só começou a diminuir por volta da 1h da madrugada, quando era o latido dos vários cachorros que se sobrepunha ao barulho da movimentação de pessoas e do trânsito na Avenida São João. Cerca de dez tendas de camping davam abrigos a algumas famílias, mas outras dezenas dormiam expostas à noite fria paulistana. As doações mais disputadas eram as mantas mais grossas, o sopão e o chocolate quente, alimentos que também vieram no início da madrugada.

Gerivaldo Araújo, de 39 anos, conversava com os amigos sobre as expectativas da seleção brasileira na Copa que se aproxima, a qual não acredita que o “egoísta” Neymar consiga ser capaz de trazer o hexa. A conversa sobre o futebol foi interrompida para relembrar a noite retrasada, em que foi acordado por um dos dois filhos para sair de forma apressada do 2º andar do edifício que desabaria poucos minutos depois. “Quando cheguei na portaria, já tinha uma língua de fogo comendo o teto. Ainda pensei em salvar alguma coisa, a geladeira principalmente, mas não deu tempo de voltar”, disse.

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Ele disse carregar um trauma e espera “maior consideração” da Prefeitura com quem perdeu tudo. “Eles vieram aqui para nos oferecer um albergue. Tivemos perdas materiais e morais muito grande. Foi traumático. Esperava uma melhor atenção”, disse. Desde o dia do desabamento, agentes da assistência social da Prefeitura tentam levar os desabrigados para centros de acolhimento público, mas têm enfrentado resistência. A maioria continua em frente à igreja do Largo do Paiçandú. À noite, lideranças se comprometeram em tentar mobilizar um maior deslocamento, o que não havia ocorrido até o início da manhã desta quinta.

Do lado de fora do cercadinho, moradores de rua de outras regiões também procuravam o local para receber doações de roupas e alimentos. A tentativa de acesso não autorizada à área destinada às famílias desabrigadas do prédio resultava em uma expulsão física rápida por moradores que se encarregavam do controle de acesso no local.

 

 

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