Robson Fernandjes/AE-19/11/2010
Robson Fernandjes/AE-19/11/2010

''Bocas'' deram lugar a ''lojinhas'' e ''shopinhos''

Drogas são vendidas por garotos em pontos itinerantes, em pequenas quantidades

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2010 | 00h00

Em vez de "boca", as gírias "lojinha" e "shopinho" são hoje as mais comuns para identificar pontos de venda de droga nas periferias de São Paulo. O primeiro termo ficou associado à violência dos traficantes dos anos 1990 e começo dos 2000. Os últimos, aos tempos atuais, quando os riscos de morrer na função ficaram menores. Temporadas em prisão, mesmo que breves, são um destino quase certo. Nesse caso, perde-se a liberdade, mas surge a oportunidade para se ampliar os contatos criminais.

Para diminuir os riscos de prisão ou o tempo da pena, algumas estratégias são recorrentes: as bocas, por exemplo, não são pontos fixos, mas rodinhas de jovens à espera de clientes. Os vendedores carregam pouca quantidade de entorpecente para "aliviar" o flagrante policial e quem sabe ser até fichado como usuário. Os estoques ficam entocados em esconderijos próximos. Ninguém sai armado para traficar - o porte de arma fria é crime inafiançável. Adolescentes são valorizados por receberem punições mais leves.

Essas e outras mudanças foram relatadas ao Estado por pessoas que acompanham de perto a cena atual do comércio de drogas em São Paulo. Como o antropólogo Paulo Malvasi, doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) que finaliza tese no qual faz uma etnografia de biqueiras - ou lojinhas - das regiões norte e leste da Grande São Paulo.

Existe um consenso de que os traficantes atuais estão mais focados no aumento dos lucros e na diminuição dos riscos. São comuns pontos de droga terem turnos de 12 por 36 horas - semelhantes aos dos policiais militares. Para traficar em uma das biqueiras, o vendedor recebia do gerente 15 cápsulas de cocaína. Precisava vender 12 e ficava com o dinheiro de três. Os vendedores ainda dispõem de liberdade para vender nas baladas, nos bares e em pontos com maior concentração de consumidores. Em uma extensão de cerca de um quilômetro, os interlocutores calculam que há espaço para de seis a oito lojinhas.

Flagrado pela segunda vez aos 17 anos, Marcelo (nome fictício) era gerente de uma biqueira na Praia Grande quando foi parar na Fundação Casa. Na lojinha em que atuava, tinha parceria com dez vendedores e movimentava R$ 15 mil por dia só em crack. A receita com cocaína e maconha chegava a R$ 8 mil. Já Fernando, de 16 anos, interno da Fundação Casa, era um simples vendedor de drogas em Embu-Guaçu e se diz arrependido. "Tenho saudade da minha família. É melhor arrumar um trampo. Essa vida não é boa pra ninguém."

"Proceder". A hegemonia do Primeiro Comando da Capital (PCC) na distribuição de drogas em São Paulo, alcançada em meados dos anos 2000, diminuiu a concorrência sangrenta no mercado de entorpecentes paulista. Para ser gerente ou vendedor de drogas, não é preciso ser filiado ao PCC. É importante, no entanto, respeitar regras do crime. Ter o chamado "proceder". Nos bairros com elevado movimento de vendas, sempre existe um "irmão" em "contato" com as prisões. Cabe a ele garantir a ordem no território e evitar, assim, a presença de policiais. Dependendo do bairro, são chamados de "sintonias", "pilotos" ou "comando".

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