Bob Dylan hipnotiza público em SP

Mesmo sem dizer nem um 'oi' à plateia e deixando de lado alguns hits, o músico mostrou por que é um dos maiores mitos da música pop

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h00

À frente de um eficiente bando de bluesmen, o cantor norte-americano Bob Dylan trouxe amostras de seu histórico cancioneiro a São Paulo, ontem, no primeiro de dois shows no Credicard Hall.

Sem falar um "oi" para a plateia, como de costume, o messiânico trovador abriu a apresentação com Leopard Skin Pill-Box Hat. Mas por mais recluso e fechado que seja - imprensa e fotógrafos não foram permitidos nos shows no Brasil, por exemplo -, sua disposição no palco indica o contrário: ao tocar Highway 61 Revisited, o músico deu saltinhos de empolgação e liderou a banda não como estrela, mas como componente do grupo.

O cantor deu sequência a um show de rara efervescência blueseira, em que sua voz cavernosa parecia ter mais distorção que as próprias guitarras. No entanto, dava um poético equilíbrio entre sua afinadíssima banda. E quando tomava a forma de um solo de gaita, mostrava que, mesmo curtida, vinha do mesmo lirismo arrebatador.

Na porta da casa, meia hora antes do show, a bilheteria ainda vendia ingressos que chegavam a custar R$ 900. Bob Dylan talvez seja o único artista solo capaz de vender ingressos no Credicard Hall, casa de shows na zona sul da cidade, por quase R$ 1 mil - e a expectativa por sua apresentação provocava movimento intenso no mercado paralelo, com cambistas por todos os lados. Alguns fãs ironicamente carregavam cartazes escritos em inglês neon, "por favor, preciso de um ingresso grátis".

Eletrizante. O público no show de ontem era um mix curioso. Alguns quarentões, por exemplo, compraram pipoca para assistir ao show. Um apanhado das camisas de bandas - AC/DC, Ozzy Osbourne, Beatles, Suicidal Tendencies, Bad Religion - também sugeria uma plateia roqueira madura, de gostos variados, que como seus ídolos tem Dylan como denominador comum. Já a juventude descolada era a minoria.

O público sugeria mais uma apreciação histórica pelo velho Bob do que fanatismo. Em uma eletrizante hora e meia de rock and roll, ficou claro que o músico faz turnês porque não consegue largar uma espécie de vício de palco. Mesmo ser trocar palavra com o público, o que importava ali claramente era a música.

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