Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Boatos entre motoristas e insatisfação com sindicato param SP e impõem caos

Capital travou após decepção da categoria com aumento salarial inferior a 13% e divulgação de informações por redes sociais; trabalhadores esperavam do sindicato a organização de greve, não realizada, e reajuste de 19% de Haddad, não prometido

Bruno Ribeiro, Caio do Valle e Laura Maia de Castro, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2014 | 18h22

Uma série de boatos entre motoristas e cobradores e a insatisfação nas garagens de ônibus causaram uma greve-surpresa, paralisaram São Paulo e impuseram o caos aos paulistanos. Por dois dias, a cidade travou durante o movimento de trabalhadores que ficaram praticamente sem aumento real de salário por uma década e são representados por um sindicato atolado em disputas por poder. Os coletivos deixaram de circular de vez depois da promessa – não confirmada – de que a categoria faria uma greve durante a campanha salarial deste ano.

O compromisso teria sido firmado pelo Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas) – informação que a entidade nega. Os motoristas esperavam um dia de manifestações por um reajuste de 13%.

“Eles falavam nas comissões de garagens que iam parar, fazer e acontecer, que esse ano nós iríamos para o ‘pau’. Ou seja, o sindicato inflou a categoria”, disse um motorista de uma linha com ponto final no Largo do Paiçandu, no centro, onde a paralisação começou, na terça-feira. “Quando eles chegaram com 10%, mandando a gente aceitar, o pessoal se revoltou.”

Segundo os motoristas, a frustração da greve não realizada e o desempenho pífio nos ganhos trabalhistas trouxeram revolta contra os dirigentes. “Foi uma greve contra o sindicato”, disse outro motorista. Em dez anos, a categoria teve baixo aumento real (veja abaixo).

No Facebook, há um vídeo que mostra um dos líderes do sindicato, Edvaldo Santiago, ex-presidente por dois mandatos e protagonista de acusações de violência e corrupção, tentando explicar por que aceitar o reajuste. Ele é acuado pelos motoristas e para de falar.

O presidente do Sindmotoristas, Valdevan Noventa, confirma que defendia aumento de 13%. Disse que convocava os motoristas para ir “às ruas”, mas sem falar em greve. Afirmou que, depois de uma negociação de seis horas com os empresários, cedeu. “Foi a melhor proposta possível.”

No site do Sindmotoristas, a reunião que ratificou o acordo com patrões é anunciada como uma “manifestação saindo do sindicato e caminhando até a Prefeitura”, sem falar em assembleia. “Mas, na sexta-feira, fomos às garagens falar da mudança. Na segunda de madrugada, também”, afirmou Noventa.

‘Rádio peão’. A notícia da paralisação no Paiçandu se espalhou na mesma velocidade de uma série de boatos entre a categoria. A chamada “rádio peão” foi amplificada pelas redes sociais.

O secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto, foi acusado, por exemplo, de chamar a categoria de “vagabunda” em uma entrevista – fato que não aconteceu. O prefeito Fernando Haddad (PT) foi atacado por descumprir acordo de dar 19% de aumento à classe – outra informação desmentida.

Santiago, que aparece no vídeo, foi apontado como o mandante da greve dos dissidentes: a Santa Brígida é sua base eleitoral. Além disso, foi disseminada entre os trabalhadores uma planilha que mostrava que as empresas informavam à São Paulo Transporte (SPTrans) pagar salário maior do que o realmente recebido pelos funcionários.

O descontrole dos boatos ficou mais evidente na quarta-feira, quando Tatto disse na porta da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) que homens armados agiam nos atos.

O acordo que pôs fim à paralisação foi firmado na quinta-feira, já com a polícia na rua para garantir a circulação dos coletivos. A greve, no entanto, havia se espalhado para outras cidades da Região Metropolitana.

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