Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Bloqueios para estimular isolamento social causam congestionamento e lentidão em São Paulo

Interdições realizadas apenas no horário de pico da manhã, das 7h às 9h, liberaram apenas uma faixa em quatro avenidas de grande circulação

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 20h01

SÃO PAULO - A cidade de São Paulo registrou longos congestionamentos e altos índices de lentidão nos pontos de bloqueio montados pela prefeitura para estimular o isolamento social na cidade nesta segunda-feira, 4. As interdições, realizadas apenas no horário de pico da manhã, das 7h às 9h, liberaram apenas uma faixa em quatro avenidas de grande circulação.

O índice de lentidão apresentou pico de 21 quilômetros às 8h, de acordo com medição da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) em parceria com o aplicativo Waze. A marca esteve próxima do pior registro durante a quarentena, considerando-se todos os períodos, que foi na tarde do dia 30 de abril, véspera de feriado do Dia do Trabalho, com 38 quilômetros. Ainda de acordo com a CET, o índice de congestionamento da cidade ficou em 11 quilômetros entre 8h e 9h. É o segundo maior pela manhã durante a quarentena. O recorde foi registrado na quarta-feira, dia 30 de abril, com 18 quilômetros.

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Os bloqueios desta segunda-feira foram feitos como um alerta aos motoristas. A partir desta terça, 5, a restrição de circulação será ainda maior. Apenas os corredores de ônibus estarão liberados, com permissão de acesso apenas para ambulâncias e veículos do serviço funerário. Para os carros particulares, a saída será buscar caminhos alternativos.

Segundo o secretário municipal de Saúde, Edson Caram, novas medidas deverão ser tomadas se a cidade continuar a registrar congestionamento. "Se em uma semana você perceber que não houve a efetiva adesão, outras medidas serão tomadas. Amanhã (terça-feira) teremos pista fechada, apenas corredor de ônibus será liberado. Se houver necessidade, mais vias serão fechadas", afirmou o secretário. "O ideal é que a população entenda que esse é o pior momento da crise. Não estamos fechando a cidade toda. Estamos criando alguns bloqueios para incomodar quem está na rua, mas poderia estar em casa", completa.

Nesta segunda-feira, as redes sociais registraram inúmeras reclamações de profissionais de saúde que não conseguiam chegar aos locais de trabalho. Nesta terça-feira, a secretaria promete que o cadastro dos médicos para isenção de rodízio será automaticamente migrado para liberação do uso do corredor. Para os enfermeiros, o órgão promete solicitar ao Conselho Regional de Enfermagem a lista dos profissionais para que eles sejam liberados nos bloqueios.

A interdição causou reclamações também em outros setores da população. Depois de percorrer um quilômetro de lentidão na Avenida Santos Dumont, um dos principais acessos da zona norte ao centro da cidade e que estava bloqueada no cruzamento com a Avenida do Estado, o aposentado Nivaldo Martins afirmou que o bloqueio dificulta o deslocamento de pessoas que tenham compromissos médicos. "Estou levando minha sogra para fazer quimioterapia e perdi muito tempo. Fico pensando se vão me deixar passar nos outros dias", afirmou. "Sou a favor do isolamento social, mas é preciso levar em conta questões de saúde", afirma.

O professor Luiz Vicente Figueira de Mello Filho, especialista em mobilidade urbana, considera o bloqueio das vias uma atitude contraditória por causa da lotação no transporte público. "Não adianta estimular o uso do transporte público sem aumentar a oferta de ônibus, trens e metrôs. Isso gera as lotações. Temos ônibus com 48 assentos que chegam a transportar 70 pessoas. Isso é um risco, mesmo que haja obrigatoriedade do uso de máscaras. Não há distanciamento dentro dos coletivos", argumenta o engenheiro mecânico e de tráfego da Universidade Mackenzie Campinas. "São quatro pessoas por metro quadrado quando o ideal seria uma pessoa a cada 1,5 m. É uma situação invertida. O distanciamento dentro dos ônibus é uma medida mais favorável à redução de risco de transmissão da covid-19 do que o bloqueio de automóveis".

Utilizar o ônibus será a solução de Claudio Pereira Gomes, de 43 anos, para chegar ao trabalho hoje. Com a promessa de bloqueio da Radial Leste, ele vai usar metrô e ônibus para sair da Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, para chegar ao Alto da Lapa, onde trabalha na área de segurança. "No carro, eu me sinto mais protegido. Eu vou com o vidro fechado. No ônibus, eu fico com receio até de pegar no corrimão. É uma situação bem difícil", afirma.

Os outros pontos de lentidão foram a Avenida Radial Leste, bloqueada na altura da Rua Pinhalzinho, com 1,8 km de congestionamento e a Avenida Moreira Guimarães com a Avenida Miruna, que registrou 2,2 quilômetros daquele "anda e para" na zona sul. Na zona oeste (Av. Francisco Morato x Rua Sapetuba), a lentidão foi de apenas 400 m de acordo com o critério de formação de filas da CET. A partir desta terça-feira, as faixas estarão totalmente bloqueadas.

O objetivo dos bloqueios é procurar aumentar a taxa de isolamento social no município. Neste domingo, o índice de isolamento social foi de 59%, segundo o Sistema de Monitoramento Inteligente (SIMI-SP). Para o combate da propagação do coronavírus, o ideal seria de 70%. A falta de adesão preocupa o governo, pois o pico da doença está previsto para este mês.

Obrigatoriedade de máscaras

Apesar dos congestionamentos nas principais avenidas, foi grande a adesão de passageiros no primeiro dia de obrigatoriedade do uso de máscaras nas linhas da Companhia Paulista Metropolitana de Trens (CPTM), Metrô, ônibus rodoviários, interestaduais e no município de São Paulo. Os decretos publicados pelo prefeito Bruno Covas (PSDB/SP) e pelo governador João Doria (PSDB/SP) também estendem o uso obrigatório para os táxis e transporte por aplicativos na capital.

Em alguns casos, motoristas de ônibus chegaram a barrar a entrada de passageiros sem máscaras. “Precisei impedir duas pessoas que estavam sem máscara que queriam entrar de todo o jeito. Eles disseram que ia manter a distância dos outros, mas não deixei”, disse o motorista Douglas Pereira, de 54 anos, que transporta passageiros do Itaim Paulista até o Terminal Parque Dom Pedro II. Outras ocorrências se referiam aos passageiros que estavam com a máscara guardada nas mochilas ou bolsas. Os passageiros que descumpriram as regras foram advertidos verbalmente.

Cartazes fixados no para-brisa e nas portas laterais dos veículos avisam que só podem embarcar pessoas com máscaras. Em casos extremos, os motoristas podem até acionar a Polícia Militar para retirar os passageiros sem o equipamento de proteção individual. "Mesmo quem não tem sintoma pode estar infectado e infelizmente acabar contaminando outro passageiro", lembrou o secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy.

O governo paulista vai publicar nesta terça-feira um decreto instituindo a obrigatoriedade do uso de máscara em todo o estado. O anúncio foi feito nesta segunda-feira pelo governador João Doria. A medida entra em vigor no dia 7 de maio, quinta-feira.

A vendedora Augusta Pereira, 32 anos, precisou comprar sua máscara no terminal de ônibus do Grajaú, zona sul da capital paulista, para chegar também ao Terminal Parque Dom Pedro II, na região central. Ela pagou R$ 5 numa máscara de tecido porque havia perdido a anterior. "Na semana passada, a maioria das pessoas não usava. Foi preciso obrigar para o pessoal usar", disse.

A fiscalização sobre a falta de máscaras deverá ser feita pelas empresas que operam os serviços. Caso seja encontrada alguma irregularidade, elas serão advertidas por escrito. Em caso de reincidência, as companhias serão multadas pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp). A multa é de R$ 3,3 mil por dia se algum veículo for flagrado transportando um passageiro sem máscara.

A secretaria estadual de Transportes Metropolitanos estuda distribuir cerca de dois milhões de máscaras no decorrer da semana no Metrô, CPTM e terminais EMTU, de acordo com a necessidade. De acordo com o órgão, as máscaras foram obtidas por meio de doações.

Cabines de higienização

Duas cabines de higienização foram instaladas nesta segunda-feira, 4, na Estação Tatuapé da CPTM como medida de combate ao novo coronavírus. A cabine borrifa uma solução hidroalcoólica higienizante, que seria eficaz contra bactérias, fungos, leveduras e vírus. A Secretaria de Transportes Metropolitanos (STM) promete instalar cabines em mais 25 estações da CPTM e do Metrô.

De acordo com o órgão, a solução é certificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "Cada pessoa fica apenas quatro segundos dentro do box, e a eficácia da solução é de quatro horas", informou a secretaria em nota.

A iniciativa é uma parceria do governo paulista com a farmacêutica Neobrax. A empresa planeja que a cabine "fique de forma permanente em pontos estratégicos da capital e mesmo após a pandemia".

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