Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Blocos de rua de São Paulo vão à luta e criam o ‘carnaval em casa’

Sem rua, sem aglomeração e sem patrocínio, grupos adaptam cursos, oficinas e apresentações para o ambiente virtual; pandemia já preocupa realização dos desfiles no verão de 2022

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

SÃO PAULO - Se 2021 fosse um ano como os anteriores, blocos de rua estariam hoje em meio a ensaios e festas de pré-carnaval para encarar uma programação oficial de três semanas e quase 700 desfiles a partir desta sexta-feira, 5. Esse cenário, de uma cidade tomada por milhões de foliões, tornou-se impossível com a pandemia, que obrigou grupos e escolas a um carnaval digital – diante de uma tela de computador ou celular.

Oficinas, apresentações e cursos foram modificados para se encaixar nas transmissões ao vivo, seja com um grupo de músicos restrito ou com cada artista tocando de casa. Também houve quem tentou promover atividades interativas, com o público fazendo som com itens domésticos, como baldes, e outros que focaram em arrecadar fundos para projetos sociais.

Nesse cenário, os patrocínios minguaram, apresentações foram adiadas – elas se estendiam em eventos e casas de shows ao longo do ano –, enquanto boa parte dos realizadores enfrentou os efeitos da crise no mundo de entretenimento e arte, com a redução de trabalhos e o desemprego.

A perspectiva de desfiles fora de época, neste 2021, é vista com ceticismo e já há quem tema pelo carnaval de 2022, embora a Prefeitura afirme que está discutindo a questão com os envolvidos, o que inclui as escolas de samba. Em grande parte dos blocos defende-se a ideia de que a folia seja retomada quando a covid-19 estiver superada, após a vacinação da maioria da população.

Na segunda-feira passada, 25, o Fórum de Blocos de Rua de SP, que reúne cerca de 150 agremiações, publicou carta aberta em apoio à campanha “Carnaval em Casa”, lançada inicialmente no Rio. “Já não há dúvida de que não seremos um povo imunizado em sua totalidade antes do fim deste ano. E nossa festa ou é para ser de todos ou não deve acontecer”, diz um trecho do texto.

“A turma que faz o carnaval do tamanho que está agora em São Paulo já se reuniu suficientemente via internet para saber que não dá”, diz José Cury, um dos coordenadores do Fórum. “A rua sabe que sem a vacina não rola. Lá no Rio, o (prefeito Eduardo) Paes já falou (que não terá em 2021). Aqui em São Paulo está demorando para o (prefeito Bruno) Covas fazer igual.” 

Cury acredita que o carnaval vai ocorrer espontaneamente assim que cientistas afirmarem que a situação está sob controle e que é possível aglomerar em cortejo. “Acho que serão os melhores dias da vida de todo mundo. Vai ser tudo que sempre foi e mais um pouco, quinta e sexta de noite, sábado, domingo. Vai extravasar.”

Ele é um dos fundadores do bloco Me Lembra Que Eu Vou, com seis carnavais de história e que teve de adaptar suas oficinas de percussão para o ambiente virtual. “Ninguém sabia dar aula de música online para um bloco inteiro”, recorda. Deu certo, mas há um temor de que ocorram desistências na turma de 2021. 

O bloco também fez algumas lives e, para o carnaval, discute a possibilidade de reunir percussionistas em um campo de futebol ou espaço semelhante, com distanciamento social, para uma transmissão especial de carnaval. “Um batuque com um longe do outro, mas isso são coisas a se decidir”, destaca Cury.

Outro que precisou se adaptar foi o Ilú Obá De Min, que vinha no embalo de uma série de apresentações e tinha agenda para gravar um álbum com apoio privado. As oficinas e cursos foram adaptados para a internet, focados tanto em carnaval quanto em cultura afro-brasileira, como o de “Diálogos e Vivências com Ritmos Africanos”, ministrado por uma das fundadoras do bloco, Beth Beli.

Para este carnaval, o grupo está atrás de apoio para uma intervenção em fachadas da região central, com a projeção de imagens do bloco em pontos por onde costuma passar em seu cortejo. “É para não passar batida essa data, são 16 anos que desfilamos”, explica Baby Amorim, uma das coordenadoras do grupo. “Não é um ano para ficar comemorando, não tem o que comemorar.”

Mesmo em condições adversas, o grupo lançou um “manifesto visual” da festa em dezembro, gravado com integrantes e com o tema Pequenas Grandes Áfricas. Apenas um único ensaio – com 25 das quase 400 ritmistas – ocorreu desde o início da pandemia e em local privado e ao ar livre, em vez de um espaço público e aberto, como costumava ser.

Com cinco carnavais e um público estimado de 150 mil pessoas em 2020, o bloco Minhoqueens também tem planos para fevereiro. Será um festival carnavalesco, de cultura drag queen, com seis transmissões ao vivo de um estúdio, divididas em três sábados. “Terá DJs, mostra fotográfica, performance de drag queens, drags cantoras”, conta Fernando Magrin, idealizador do bloco. “Vamos tentar levar a alegria à tela do computador e ao telefone.”

Ele tinha grandes planos para 2020, mas foi tudo “por água abaixo” com a pandemia. Algumas festas ocorreram em videoconferência e parte do público chegou a se fantasiar e decorar a casa. Além disso, começou a fazer uma live semanal no Instagram, chamada “Papo de Drag”. “A saudade do fervo fez eu me montar em casa.”

Assim como o Minhoqueens, o CarnaGeek também conseguiu apoio por um edital do governo estadual.  A proposta é um desfile em trio elétrico, sem público, que será transmitido online em 12, 13 e 14 de março.

O Berço Elétrico adotou estratégia semelhante. Voltado a famílias com bebês e com dois carnavais de trajetória, ele vai lançar o curta de animação O Carnaval Sumiu nesta sexta-feira, 5. “A gente queria trazer algo diferente e o desenho animado, qualquer criança vê. A gente não precisa ir para a rua. Trabalhamos com uma linguagem bem didática o porquê de não ter carnaval neste ano, em que as crianças encontram o carnaval, ao descobrir que está dentro de cada um, que faz parte da nossa cultura e que, para isso, a gente não precisa ir para a rua”, conta Diogo Rios, um dos fundadores.

Segundo ele, o lançamento será uma espécie de “grito de carnaval” para a live que será realizada no dia 13, diretamente de um teatro paulistano. Tanto a apresentação quanto o show serão financiados pelos próprios realizadores, após uma vaquinha interna. “A ideia é que a gente multiplique, porque hoje quem curte o bloco é só o pessoal daqui (de São Paulo). A ideia é preencher essa lacuna do carnaval que não vai ter. É muito estranho o Brasil, o País do carnaval, sem carnaval.”

Já o Lua Vai, que estreou em 2017, ainda não sabe se conseguirá celebrar o carnaval neste ano. Segundo Leandro Pardi, um dos fundadores, uma das principais questões são os custos, por isso, ele cogita se inscrever em um edital recém-lançado pela Prefeitura. “O meu carnaval será completamente diferente de tudo que imaginei, provavelmente vou procurar filmes com temática de carnaval para assistir de casa”, conta.

O bloco teve uma rara experiência de carnaval adaptado para o público na pandemia, em uma apresentação em novembro, no qual o público foi reduzido e dividido em bolhas sociais (de amigos ou familiares) ao ar livre, separadas por cercadinhos metálicos. A experiência foi diferente, mas, com a piora nos índices da pandemia, decidiu-se não repetir a fórmula.

“Por enquanto, a gente tem pensado em algumas ações online, mas ainda estamos procurando patrocinadores para isso, ainda é muito incipiente”, conta Pardi, que trabalha como produtor cultural e também sofreu os impactos da pandemia profissionalmente. “A gente está tentando se virar, tentando dar aulas online, fazendo ações pensadas para o online, mas isso, quando se transfere para o carnaval é bastante complicado.”

Capital paulista terá apresentações virtuais em fevereiro

A Prefeitura de São Paulo lançou na quinta-feira, 28, as inscrições para o Festival Tô Aguardando, com até 100 apresentações virtuais e 200 propostas artísticas (como debates, performances e afins) e cachês entre R$ 1 mil e R$ 3 mil por bloco. 

Com orçamento total de R$ 500 mil, o evento fará a seleção com base em um sistema de pontos, que dá prioridade a blocos de rua com dez anos de carnaval ou mais, fora da região centro-oeste, de menor porte e com ações sociais. As apresentações terão duração de uma a duas horas e ocorrerão ao longo de fevereiro, com transmissão gratuita por plataformas digitais.

Questionada sobre a realização do carnaval de blocos de rua e escolas de samba, a gestão municipal respondeu que “não há uma data definida” e “vem articulando com as principais instituições carnavalescas”.

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