FELIPE RAU
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Bloco no centro de São Paulo tem até casamento

Cortejo do Tarado ni Você reuniu milhares de foliões ao som de músicas de Caetano Veloso; houve espaço também para protesto político

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2020 | 21h18

SÃO PAULO - Mari e Monique se conheceram no caminho de um bloco há dois carnavais e celebraram neste sábado, 22, o casamento em cima do trio elétrico do Tarado Ni Você, no centro de São Paulo. Emocionadas, as noivas fizeram juras enquanto eram aplaudidas por milhares de foliões.

A cerimônia teve a participação das famílias das noivas. Ana, avó de Mari, disse sentir uma “emoção além da conta”. “Que o amor fique entre vocês sempre. É a única coisa que vale a pena.”

Na hora dos votos, Mari contou ter escrito 74 versões. “A única coisa que prometo é aprender com você todos os dias. Te amo demais.” Já Monique, emocionada, disse: “Não imagino um segundo na minha vida sem você.” Zé Ed, principal vocalista do bloco perguntou: “É de livre e espontânea vontade?". Elas trocaram alianças e o vocalista cantou Nosso estranho amor, de Caetano Veloso, que inspira o bloco.

O casal se conheceu por meio de amigos a caminho do desfile de outro bloco em São Paulo, em 2018. Monique Lemos, de 26 anos, é antropóloga, e Mariana Santos, de 38, é estrategista criativa e cofundadora do Tarado Você, em que também é vocalista e percussionista. 

Entre o carnaval e o pós-carnaval, Monique sugeriu que deveriam se casar na folia. “Começou essa brincadeira, vamos casar – e no carnaval.” Monique conta que a organização do casamento foi uma “maluquice”, pela logística e o planejamento de como encaixar a cerimônia como parte do desfile. Cerca de 60 convidados foram inscritos para ficar dentro da corda, mais pertinho da noiva, mas o convite se estendeu a umas 200 pessoas, segundo o casal. 

Também houve dúvidas sobre decoração e roupas. “Mudei de ideia umas 20 vezes”, diz Monique, que usou um body com estampa de tigre. Já Mari foi de body brilhante, com uma capa neon verde, que seguia o tema do bloco deste ano, Terra em Transe, cuja arte é de tigres verdes.

Elas também utilizaram um colar comprado na primeira viagem das duas juntas, na África do Sul. "É um traje vestido, ancestral, todo bordado de miçangas. Significa mais para e gente do que um véu", descreve Monique.

“A gente está chamando de ‘carnamento’. Acho que vai ser a primeira vez em um bloco que a uma integrante da banda vai tocar no próprio casamento”, diz Mari. 

Cortejo traz tom crítico, sem citar Bolsonaro diretamente

O bloco teve críticas ao poder público mas sem mencionar diretamente o presidente Jair Bolsonaro. “Daqui a pouco vai acontecer o golden shower”, disse um músico convidado. O termo remete a postagens de Bolsonaro nas redes sociais durante o carnaval de 2019, em que citou o termo, uma prática sexual, e também publicou um vídeo obsceno. No cortejo, também foi lembrada a vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros no Rio em 2018.

Em frente ao Theatro Municipal, o bloco parou e uma grande bandeira de dois tons de azul foi estendida sobre o público, em referência ao Rio Bexiga. O trio então lembrou que a Câmara Municipal aprovou a criação do Parque Bexiga e chamou o público a cobrar a sanção do prefeito Bruno Covas (PSDB). "Todos os rios que foram soterrados nessa cidade. É pra lembrar que nessa terra tem rio."

Em outro momento, a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL) e a líder Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), Carmen Silva Ferreira, lembraram do desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, há quase dois anos, que deixou sete mortos. 

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