Bloco mais antigo de São Paulo, Esfarrapado se orgulha da fidelidade

Foliões exaltam cortejo que nunca deixou de desfilar pela capital

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

08 Fevereiro 2016 | 17h31

Apesar de o cortejo só ter saído às 14h, folião que é fã já estava a postos muito antes, minutos mais cedo do que as 10h, horário marcado para o início da concentração. E, no caso do Bloco Esfarrapado, o mais antigo de São Paulo, a paixão dos foliões transcende o próprio carnaval - é algo que está acoplado ao RG, uma espécie de descrição que se segue ao nome, do tipo: sou Fulano de Tal, tenho tantos anos, nasci e moro no Bexiga e sou Esfarrapado. 

O bloco nasceu no carnaval de 1947, e os foliões se gabam de que nunquinha, nunquinha mesmo, o cortejo deixou de sair, religiosamente, na segunda-feira de carnaval. "Nem na época da ditadura, quando éramos perseguidos e tínhamos de desfilar meio que na clandestinidade", conta o funcionário público Maurizio Bianchi, de 53 anos, atual presidente do bloco. 

Ao contrário do que possa parecer, não há nenhum melindre dos "esfarrapados" com esse turbilhão de blocos – que maravilha, olha só a folia dominando as ruas de São Paulo –, que de uns anos para cá passaram a proliferam em tudo que é canto da cidade, da Vila Madalena aos confins da zona leste, do centro ao Largo 13, de Santana à Vila Mariana. "É essa diversidade dos blocos que fez com que a população se voltasse para o carnaval de São Paulo. Fez com que melhorasse a própria organização do carnaval", diz Bianchi. "E isso se reflete até em nosso público, que aumenta a cada ano." Pelas suas contas, foram 55 mil no ano passado e, neste ano, 65 mil. 

O cortejo saiu da Rua Conselheiro Carrão e foi vencendo, uma a uma, marchinha a marchinha, passos ritmados e constantes, as ruas Marquês de Leão, Una, Rocha, a Praça 14 Bis, as ruas Manoel Dutra, Maria José, a Avenida Brigadeiro Luis António, as ruas Major Diogo, Santo Antonio, e a Avenida 13 de Maio… Ufa! Itinerário que Bianchi sabia de cor e salteado e recitava a quem perguntava ainda na parte da manhã. Itinerário que foi cumprido às 17h. 

Mas, como dizíamos, folião que é fã é mais que folião, e a multidão já se aglomerava ali no Bixiga ainda na parte da manhã. Bianchi, o presidente, é daqueles que, literalmente, contam a idade pelos carnavais. "Faz 53 anos que desfilo aqui, porque meus pais me trouxeram no colo logo que nasci", gaba-se.

O advogado Rubens Machioni, de 66 anos, "só" tem 56 carnavais pelo Esfarrapado. "Com 10 anos já vinha. E sozinho", conta ele, que sempre morou no bairro. "É o único bloco que vou. Sou fiel. Não viajo nunca no carnaval, porque meu compromisso é com o Esfarrapado." A paixão está até na tela de fundo de seu celular, com o símbolo da agremiação e, claro, da escola de samba Vai-Vai, patrimônio também do Bixiga. "Sou torcedor da Vai-Vai mas, para mim, o Esfarrapado é ainda maior", diz. "Porque o bloco ainda é a essência do carnaval, a escola de samba acabou virando uma empresa." Ele define o Esfarrapado como uma "instituição" do bairro.

A técnica em nutrição Selma Monteiro, de 53 anos, segue o bloco há duas décadas. Antiga moradora do Bixiga, segue chegando cedo nas segundas de carnaval mesmo depois de ter se mudado para a Penha, na zona leste de São Paulo. E leva a família toda. Ontem, eram em seis – o mais novo, o neto Miguel, de 3 anos. "Carnaval é quando revejo meus amigos", comenta ela, enquanto cumprimenta um e sorri para outro. "E o Esfarrapado é isso: é família, é bem organizado e todo mundo conhece todo mundo."

A professora Márcia Ferri Sobrosa, de 72 anos, não economiza elogios à folia de rua. "É isso que precisa ser incentivado", diz. "O carnaval é isso. E não a avenida que limita. Na rua está o carnaval de verdade, a festa do povo."

Morador do Bixiga há mais de 30 anos, o aposentado Geraldo Jacote, de 71 anos, também bate cartão no Esfarrapado. "Chego antes das 10h e só vou embora quando o último folião arreda o pé", comenta ele, que tem "a sorte" de morar a duas quadras do ponto de concentração do bloco. 

Se por um lado o tradicional bloco costuma agradar carnavalescos das antigas, por outro, também atrai cada vez mais foliões de primeira viagem, sobretudo nos carnavais paulistanos. É o caso da carioca radicada em São Paulo Paula de Sousa Lima, professora, de 34 anos. "Sempre passo o carnaval no Rio, mas desta vez fiquei por aqui. Estou gostando muito, estou surpresa com a festa paulistana", diz. 

Outro forasteiro era o sósia profissional do Quico  – do seriado mexicano Chaves – Rogério Favo, de 37 anos. Devidamente caracterizado, ele, que mora em Porto Alegre, se esbaldava pela primeira vez em um bloco de São Paulo. "O carnaval daqui está muito bom. É festa e alegria", afirma. 

Ao seu lado  –  por coincidência  –  um folião caracterizado de Chaves roubava a atenção dos demais, muitos sedentos por tirar fotos para postar nas redes sociais. Era o músico Erivelto Garnero, de 56 anos. "Vim de Chaves porque ele é o mito da alegria e tem tudo a ver com carnaval e com o Esfarrapado", explica. "Carnaval é roupa mais velha e felicidade, essa simplicidade que festeja." 

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