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Bispo é acuado em igreja e só sai escoltado no interior de SP

2 mil pessoas protestaram contra a substituição do padre negro Wilson Luís Ramos na Matriz de Adamantina e cobraram explicações

Chico Siqueira, Especial para o Estado

08 Dezembro 2014 | 14h19

ADAMANTINA - O bispo de Marília, no interior de São Paulo, dom Luiz Antonio Cipolini, foi acuado dentro da Igreja Matriz de Adamantina, também no interior, e teve de sair escoltado por policiais militares, na noite deste domingo, 7. Ele estava na cidade para comandar a missa de Crisma, quando cerca de 2 mil pessoas se reuniram em um protesto do lado de fora da igreja para lhe cobrar explicações sobre a substituição do padre negro Wilson Luís Ramos. Com medo, o bispo se trancou na igreja e só saiu por volta das 23h, 1h50 depois do final da missa.

Mas antes de sair escoltado, o bispo enfrentou momentos de constrangimento já dentro da igreja, que estava lotada. Cipolini Teve de interromper a cerimônia religiosa, quase no fim da missa, ao ser vaiado pelos fiéis, revoltados com a saída de padre Wilson.

Sem que o bispo desse alguma explicação sobre a saída do padre em seu sermão, manifestantes, na maioria jovens com narizes de palhaço, levantaram cartazes e gritavam "fica, padre Wilson".

Em seguida, gritando a palavra "indignação", os manifestantes passaram a jogar moedas no altar da igreja. Diante do barulho provocado pelo protesto, o bispo interrompeu a missa e repassou o microfone a padre Wilson, que pediu aos manifestantes para parar, mas não foi atendido.

Os jovens continuaram gritando, ainda por alguns minutos, e foram apoiados pelo restante dos fiéis, que lotava a igreja - de 1,2 mil lugares - e batia palmas.

A revolta com a substituição do padre continuaria do lado de fora, após o encerramento da missa. Cerca de 2 mil pessoas gritavam frases contra o racismo e contra o bispo, porque ele demorava a sair.

 

"Nós só queremos que ele nos explique por que está retirando o padre de nossa cidade. Para nós, fica cada vez mais evidente que se trata de um ato de racismo", disse o vendedor Paulo Roberto Scavassa, que frequenta a Paróquia Santo Antônio de Pádua há mais de 30 anos.

Padre Wilson foi o primeiro negro a assumir a principal paróquia de Adamantina, mas, ao contrário dos padres anteriores que ficaram mais de dez anos, Ramos permaneceu na cidade somente por menos de dois anos. Depois de quase uma hora de espera, padre Wilson saiu e tentou conversar com os manifestantes. "Deixem o bispo sair, por favor", implorou ele. Em resposta, os manifestantes gritavam "não", para em seguida gritar "Explicação, explicação".

O padre ainda tentou por cerca de 15 minutos convencer os manifestantes, que responderam que só deixariam o bispo sair se ele explicasse a saída do padre. "Queremos explicação, queremos explicação", gritavam os manifestantes.

Ao perceber que não conseguiria convencer ninguém, o padre retornou para dentro da igreja, aos gritos de "Fica, padre Wilson, fica, padre Wilson".

Já passava das 23 horas quando o bispo deixou a igreja, escoltada por dezenas de PMs. Uma hora e meia após o fim da missa, a PM, que tinha alguns homens também do lado de dentro da igreja, enviou reforço para retirar o bispo por uma porta lateral.

Enquanto dom Luiz saía, a multidão gritava "Racista, racista, racista". Mas o bispo ainda teria de retornar a Marília dentro do carro de um sargento da PM, porque o carro dele teve os pneus murchos e foi riscado pelos manifestantes.

A manifestação foi a segunda ocorrida em dois dias seguidos em Adamantina. No sábado, 6, cerca de 2 mil pessoas, vestidas de preto e com velas nas mãos e faixas condenando o racismo, fizeram uma passeata em apoio ao padre.

A substituição foi pedida ao bispo por um grupo de fiéis ricos e conservadores, colaboradores da igreja, que tinham sido substituídos pelo padre de cargos de coordenação da paróquia que ocupavam havia 13 anos.

O grupo estava descontente com a opção dada pelo padre aos pobres e jovens usuários de drogas, que passaram a frequentar a principal igreja da cidade desde que o padre chegara a Adamantina havia dois anos. Neste período, Ramos sofreu preconceito por parte de fiéis.

"Outro dia vi duas mulheres dizendo que deveriam substituir o galo do alto da torre da igreja por um urubu", contou o padre em entrevista ao Estado na semana passada. Na mesma ocasião, o próprio bispo relatou o preconceito sofrido pelo padre.

Nesta segunda-feira, 8, os dois não foram localizados para falar sobre as manifestações. Padre Wilson deixou o celular na caixa postal e o telefone da casa do bispo estava no fax. Segunda-feira é dia de folga dos religiosos.

Pela circular expedida pelo bispo na sexta-feira, 5, padre Wilson deve deixar a casa da paróquia até esta terça-feira, 9. No próximo domingo, 14, ele assume o Santuário Nossa Senhora de Fátima, de Dracena, também no interior, sendo substituído pelo padre Rui Rodrigues da Silva.

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