Bienal do grafite importa artistas e traz polêmica

Evento no MuBE reúne profissionais do Brasil e do exterior, como o paulistano Crânio, que pintou os muros da casa do Big Brother

VALÉRIA FRANÇA, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2013 | 02h05

Com tinta, pincéis, sprays e madeira nas mãos, 50 artistas têm nos últimos dias mudado a cara do Museu Brasileiro da Escultura, o MuBE, nos Jardins, zona sul de São Paulo. Na próxima terça-feira, será aberta ali a 2ª edição da Bienal Internacional Grafitti Fine Art. Além dos painéis e instalações montados nas salas de exposição, as paredes externas do prédio - que também integram a mostra - estão ganhando novas cores e formas.

A exposição reúne nomes internacionais e nacionais de grafiteiros. Todos participam do evento pela primeira vez. Entre eles, há estrelas, como o nova-iorquino Daze, de 50 anos, um veterano da segunda geração do grafite americano. Mas quem ganhou destaque mesmo antes de o evento abrir foi Crânio, grafiteiro do Tucuruvi, zona norte da capital, chamado pela TV Globo para pintar o cenário do reality show Big Brother 13.

É dele o muro colorido que rodeia a piscina da casa do programa. A marca registrada desse paulistano de 30 anos é a figura de um índio, que já foi pintado em vários muros das ruas de São Paulo. "Coloco meu personagem só em locais em que ele possa interagir com a cena", explica Crânio, que desenhou seu índio, por exemplo, deslizando sobre o corrimão da pista de skate do lado da Câmara Municipal.

Ex-vendedor de filtros de água e ex-office boy, Crânio não é uma grife como osgemeos, mas há mais de cinco anos passou a viver só da arte. Desde que seu trabalho apareceu no Big Brother 13, porém, virou alvo de críticas entre os colegas. "Foram vários comentários no Facebook", admite. "Tem gente que diz que minha obra perdeu o sentido."

Discussão. "Há um certo preconceito com o trabalho que ele fez no Big Brother", diz Renata Araújo, diretora do museu. "Sua intervenção vem sendo chamada de decoração, não de grafite." Crânio explica: "Grafite é o que eu faço na rua. Mas tenho outros trabalhos. Grafite é um movimento." Em toda essa discussão, existe um certo "ciuminho artístico". Tem grafiteiro da Bienal que se apresenta dizendo apenas "que não é o cara do Big Brother".

"Todos que participam dessa mostra praticamente cresceram pintando nas ruas, mas o que eles levam para dentro do museu é um outro tipo de arte, mais técnica, pensada para um espaço fechado, para não ser apagada no dia seguinte", diz o grafiteiro Tinho, de 39 anos, coordenador da Bienal.

A exposição é uma grande oportunidade para conhecer outros tipos de traços e expressões. O grafiteiro nordestino Frank, de 30 anos, por exemplo, trouxe para uma das paredes do MuBE elementos representativos do Norte do País. Em um painel com mais de 6 m², desenhou uma índia e uma arara que ganharam formato e texturas tão realistas que poderiam estar numa tela clássica.

Frank é o único grafiteiro em toda a cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. E virou uma personalidade por lá. "Só que lá grafito muito pouco. Acabo trabalhando mais no meu estúdio de tatuagem", conta o artista.

'Selva urbana'. Ao lado de Frank, a paulistana Sinhá dá os últimos retoques em sua obra, mais uma da série de mulheres roxas que a grafiteira e poetisa costuma pintar. Dá para ver uma delas na lateral do conjunto habitacional Cingapura, na Marginal do Tietê, na zona norte.

Na mesma sala, KJ263 - um grafiteiro carioca da comunidade do Pavãozinho, de 30 anos - resolveu montar uma instalação com móveis de madeira tirados do lixo.

"Aqui vale qualquer tipo de arte", diz Crânio, que também optou por uma instalação. Ele está construindo uma oca para "combinar com a selva urbana".

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