Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Juliana Diógenes e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 02h00

SÃO PAULO - “Foi uma mudança de paradigma. Abri mão de conforto, de um estilo de vida. Saí do carro blindado para a bicicleta elétrica.” Há quase um ano, o dentista Rogério Granja, de 45 anos, largou o automóvel na garagem e passou a sair sobre duas rodas na maioria dos deslocamentos, até para ir trabalhar. “Já tive de trocar a bateria, depois que meu carro ficou tantos dias parado na garagem, sem uso.”

As elétricas, que já foram chamadas de “bike de preguiçoso” pelos ciclistas tradicionais, começaram a aparecer mais em São Paulo nos últimos dois anos, tornando as magrelas acessíveis para quem nunca tinha pensado em usá-las como meio de transporte dentro das cidades. Elas têm sido vistas como uma alternativa para quem quer deixar o carro de lado – ainda que pelo menos alguns dias por semana.

“Optei por comodidade. Em dias de calor, não quero chegar suado ao trabalho”, explica Granja. Diariamente, ele percorre pelo menos dez quilômetros: vai de casa, no Campo Belo, na zona sul da capital, até a Vila Nova Conceição, onde trabalha no consultório. 

“Hoje, sei todas as lojas que estão em volta da minha casa e do meu consultório. Eu cumprimento os seguranças e os manobristas do prédio. Você se torna uma pessoa mais sociável. Muda a interação com a cidade. Dentro do carro, você fica achando que o mundo lá fora não te pertence.”

Capazes de atingir até 25 km/h – velocidade máxima permitida em ciclofaixas e ciclovias, segundo o Conselho Nacional de Trânsito(Contran) –, as elétricas vêm atraindo um público que tinha dificuldade de usar bicicletas pelos mais diversos motivos, como não querer chegar suado ao local de trabalho ou não conseguir transpor as ladeiras de São Paulo. Ou tinha receio de andar no meio do trânsito. Com a ajuda do motor, é mais fácil largar em um semáforo e pedalar perto dos carros.

Crescimento

Não é à toa que é na ciclovia da Avenida Brigadeiro Faria Lima, a rota paulistana do pedal, onde esse movimento é mais evidente. Levantamento feito pela Aliança Bike observou que as elétricas dobraram de concentração nos últimos três anos. Em 2015, representavam 2% do total de bikes circulando por ali, hoje já são 9%. Mapeamento feito pela empresa Vela junto a cerca de mil usuários também mostrou que a maioria se concentra naquela região, e nas ciclovias da Consolação, da Paulista e da Sumaré.

Perto dali, na Vila Olímpia, mora o engenheiro Aníbal Codina, de 53 anos, que desde março só usa bicicleta elétrica para ir voltar do trabalho, perto do Shopping Santa Cruz. São cinco quilômetros de distância, um trajeto com subidas íngremes.

"Um dia pensei 'poxa, poderia ir de bicicleta, só que é uma grande subida e vou chegar todo suado'. Pensei: a solução é uma elétrica. Consigo subir pedalando sem transpirar. Só comprei bicicleta porque pego subida para ir trabalhar. Se não fosse subida, estava na bicicleta normal", afirma ele, que investiu cerca de R$ 13 mil na bicicleta elétrica e nos equipamentos acessórios. 

O carro passou a ficar na garagem. "Hoje só uso para deixar minhas filhas na escola. Quando saio à noite, ou vou de bicicleta ou peço transporte por aplicativo." Mesmo tendo carro, a editora de vídeos Silvia  Ballan, de 45 anos, já levava as filhas para a escola numa bicicleta convencional há anos - e escrevia em um blog sobre a experiência para estimular outros pais.

Em 2012, ela abandonou o carro definitivamente, passando a se locomover para todos os lugares somente de magrelinha. Mas dois anos atrás, quando a filha começou a crescer e passou a pesar na garupa, ela pensou em desistir. Até que conheceu a e-bike. 

"Tem hora que cansa pedalar porque São Paulo é uma cidade de muitas ladeiras. A elétrica quebra tudo isso porque ela sobe tranquilamente", diz Silvia. Ela dia que a e-bike oferece mais segurança do que a bicicleta convencional por alcançar velocidade mais alta à noite, por exemplo. "A elétrica me proporciona o que uma bicicleta convencional não oferece. Me sinto segura em ruas mais escuras. A velocidade é um benefício não somente para as ruas com ladeira, mas para a segurança."

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), em 2017 o Brasil importou 2.165 bicicletas elétricas inteiras. Somente até agosto deste ano, o número quintuplicou: o País importou 13.203 e-bikes. A tendência é tão nova que a classificação fiscal do produto  foi criada pela Receita Federal somente ao final de 2016. 

Tendência

 O analista de operações Alexandre Lago, de 38 anos, tem uma bicicleta elétrica desde dezembro de 2017 e percorre 36 quilômetros diariamente de casa, no Butantã, zona oeste de São Paulo, até o trabalho em Santo Amaro, na zona sul. Até se encontrar neste tipo de transporte, já tentou vários: antes de comprar uma elétrica, ele teve carro e motocicleta.

Como motociclista por quatro anos, sofreu acidente e foi roubado. Desistiu da moto e tentou ir ao trabalho de transporte público. "A volta para casa era desumana, com tanta gente no ônibus."

Um dia, no bar, Lago viu uma bicicleta elétrica e recebeu boas recomendações do ciclista que passava. Lago então decidiu alugar uma bicicleta elétrica para testar. No primeiro mês de uso, decidiu comprar uma. "A moto não é divertida de andar em São Paulo. É mais seguro andar de bicicleta do que de moto. Como estou segregado do trânsito na ciclovia, estou mais seguro. Já não tenho a tensão", conta. 

Além de ter deixado para trás a tensão de dirigir uma moto na capital paulista, ele também evita o que considera desconfortável: chegar suado no trabalho. "Como no meu trabalho não tem estrutura para tomar banho, me trocar e colocar roupa social, essa é a diferença de uma elétrica para uma convencional. Percorro 18 quilômetros de casa até o serviço já com a roupa de trabalho, o que jamais conseguiria fazer com uma bicicleta comum", diz. 

A paixão de Lago foi tão grande que ele convenceu até a irmã gêmea a deixar o carro na garagem durante a semana e substituir pela bicicleta elétrica. A publicitária Dagmar Lago há seis meses percorre 6 quilômetros de bike até a estação Butantã e, de lá, vai de metrô ao trabalho. No retorno, sobe na magrelinha de novo e volta para casa. 

"Falei para ela: não estou falando para você vender um carro. Tenha, mas use no fim de semana ou quando estiver chovendo. Trocando pela bicicleta elétrica, além de preservar o seu carro, você economiza dinheiro e ganha tempo", diz. "O combustível está muito caro. Na greve dos caminhoneiros, eu passava em postos de gasolina e dava risada daquelas filas enormes. Só vejo prós na bicicleta elétrica. É qualidade de vida, ganho de tempo e grana. Não vejo por que não virar tendência."

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Juliana Diógenes e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 08h48

As bicicletas elétricas, que têm sido cada vez mais vistas nas ruas de São Paulo, são consideradas por especialistas  em mobilidade urbana como o modal com mais capacidade de atrair o usuário do carro.

"Tem mais atratividade que o metrô, o transporte público por excelência, pois proporciona uma comodidade semelhante ao do automóvel particular. Essa migração traz um fato que começa a despertar atenção. São ciclistas iniciantes, que pedalavam pouco ou quase nada, se movimentavam com o carro. Essa é a maioria dos usuários de bike elétrica", comenta o cicloativista e blogueiro do Estadão Alex Gomes.

Segundo ele e os lojistas ouvidos pelo Estado, em geral a elétrica não vai atrair o ciclista cotidiano. "Seja por preconceito ou porque não veem necessidade, eles dificilmente fazem essa migração. Mas acho que a ideia de que é bike de preguiçoso bobagem. Elas proporcionam uma acessibilidade completa. Praticamente qualquer pessoa pode usar", afirma Gomes.

Fabricantes e revendedores registram um aumento da procura. A Vela, por exemplo, de projeto e fabricação nacionais, começou a comercializar em 2015 inicialmente para um grupo de 80 pessoas que haviam pré-demonstrado interesse em um financiamento coletivo no ano anterior. Em junho deste ano, já estava entregando 50 por mês e deve chegar ao final do ano entregando 120 por mês.

O engenheiro mecânico Victor Hugo Cruz, de 29 anos, fundador da start-up, conta que ele está sempre aquém da demanda. Diante da alta procura, conseguiu um novo financiamento para ampliar a produção. Vai mudar a fábrica para um galpão cinco vezes maior e espera estar entregando 300 bicicletas por mês até o final de 2019. Além da fábrica, tem uma loja em São Paulo e abriu mais duas neste ano, no Rio e em Brasília. Até o ano que vem estão previstas inaugurações em Curitiba e Belo Horizonte.

Ele afirma que tem dois grupos predominantes entre os interessados: quem usa carro e quem depende de muitos modais no transporte coletivo: sai a pé de casa até a estação de metrô, por exemplo, depois ainda pega um ônibus e tem de caminhar mais um pouco até o trabalho.

"Quem vem do carro normalmente está em busca de mais qualidade de vida, quer estar mais ao ar livre, conectado com a cidade. Quer ter mais liberdade e facilidade de parar no meio do trajeto para entrar numa padaria, por exemplo. E, acima de tudo, quer sair do trânsito. E diminuir seus custos", explica.

"Quem vem do transporte público também procura mais independência na sua locomoção. E quase todo mundo ganha tempo no fim do dia." Para ele, a elétrica é mais do que lazer ou esporte, mas um instrumento que pode ajudar a resolver o problema da mobilidade urbana.

Ele exemplifica com o que o motivou a dar o nome para sua empresa. "Com o surgimento das velas, os barcos não precisavam mais ser remados, começaram a se deslocar com mais facilidade. Foi possível fazer trajetos mais longos, chegar aonde não se chegava antes. A bike elétrica faz isso, aumenta a capacidade de transporte."

Segundo Henrique Ribeiro, CEO da Sense Bike, o perfil do consumidor da bicicleta elétrica tem acima de 30 anos e está em getal alinhado ao compromisso com a mobilidade urbana. Hoje este tipo de transporte começa agora a atrair a geração nascida pós-anos 90.

De 2012 até hoje, a Sense vendeu 20 mil bicicletas em todo o Brasil. Mas foi um episódio deste ano que a empresa: a falta de gasolina nos postos de combustível. "Nossas vendas tiveram muito impulso na greve dos caminhoneiros. Pela primeira vez, ficamos sem estoque. Foi uma surpresa boa", conta Ribeiro.

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Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 09h04

Como repórter de ambiente, e entusiasta das bicicletas, sempre me senti meio frustrada por não conseguir usá-las como meio de transporte. Trabalhando na Marginal Tietê e morando num bairro onde qualquer caminho que eu faça significa enfrentar uma ladeira, sempre me bateu um misto de medo pelo trânsito e de incômodo com a ideia de chegar suada e desgrenhada ao trabalho.

Adoro pedalar, mas não sou biker profissional e acabo usando bicicleta só para lazer. Certamente tem gente que faz com muita facilidade trajetos que para mim são desafiadores – sempre assisto com admiração a um grupo noturno de ciclistas que se diverte nas ladeiras da minha rua como se estivesse numa montanha-russa.

Vendi meu carro há alguns anos com o firme plano de me deslocar mais a pé ou com transporte público. Não é lá muito coerente fazer tantas matérias sobre o impacto dos combustíveis fósseis para as mudanças climáticas e não tentar fazer um pouquinho a minha parte.

Só que, apesar de morar a apenas 5 km do jornal, levo de 50 minutos a uma hora para me locomover para cá, no início a pé e depois com dois ônibus. Um trajeto que, de carro, leva cerca de 15 minutos. Com isso, acabo me rendendo à facilidade dos aplicativos de carro mais do que eu gostaria de admitir.

Até que uma amiga, ciclista convicta, que vai todo dia para o trabalho pedalando e ainda carrega o filhote na garupa, contou que trocou sua bike tradicional por uma elétrica quando começou a penar para levar o menino já maiorzinho.

Eu tinha ouvido falar nas elétricas, mas, confesso, tinha batido um preconceito. Coisa meio coxinha, não é não? Afinal, pedalar é se exercitar. Como assim um motor vai fazer o trabalho? “Mas precisa pedalar para ativar o motor”, ela me disse. “É mais fácil, mas não é uma mobilete.” 

Resolvi testar. Usei por quatro dias uma elétrica de um fabricante nacional. 

De início, saí da loja com o motor desligado, para sentir a diferença, e peguei a ciclovia da Faria Lima. No meio do trajeto liguei o motor, a princípio em uma velocidade de 10 km/h e depois a 25 km/h. Uau. É como se alguém estivesse me empurrando. A bike voa. É uma delícia.

Mas era sábado, a ciclovia não estava muito cheia e a experiência estava fácil demais. Saí dela, subi a Gabriel Monteiro da Silva, atravessei a Brasil e entrei à esquerda na João Moura. 

Ali a ciclovia é estreita, o asfalto é bem ruim, todo ondulado ou esburacado, e a bike trepida demais. Mas me lembrei que a rua tem uma pirambeira de respeito ao passar sob o viaduto da Sumaré. Era a hora de fazer o grande teste. Respirei fundo, girei o botão para os 25 km/h e fui. 

É uma subida realmente íngreme. Me senti como em um carrinho 1.0 que vai na primeira marcha. Tem de pedalar com firmeza, dá para ouvir o motor sofrendo um pouquinho, mas a bike vai lindamente. Subi algo que até a pé é difícil. Imagine levando mais 18 quilos nas pernas. A magrela passou no primeiro teste que me importava.

Na terça-feira resolvi fazer o segundo teste, de trazê-la até o jornal. Fiz um caminho um pouco mais longo para aproveitar a ciclovia da Sumaré-Viaduto Antártica. Tudo muito bem. Até chegar à rotatória da Marquês de São Vicente e… ops, cadê a ciclovia? 

Ela acaba na avenida antes de chegar à ponte do Limão. A partir dali o caminho fica meio assustador, entre carros, caminhões e ônibus em alta velocidade. É preciso encarar as alças de acesso na raça. Atravessei a ponte pela calçada, fiz um caminho por dentro do bairro para não pegar a marginal, e cheguei sã e salva, mas um pouco suada, em exatos 27 minutos ao jornal. Bacana!

A bike é uma belezinha. Dá impulso para enfrentar as subidas, velocidade para sair de momentos mais tensos. Ela só não consegue resolver os problemas estruturais da cidade que são comuns a qualquer ciclista, seja de bike elétrica ou convencional. 

Falta ciclovia, o asfalto em muitas ruas é ruim demais e é difícil manter o controle, principalmente nas descidas. Fora que os motoristas ainda não são exatamente amistosos. Mas ela realmente ajuda a sair mais rapidamente dessas situações. Comecei a ver na bike elétrica uma alternativa real de mobilidade urbana mais sustentável.

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