HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Bibliotecas apostam na interação com leitor

Elas abrigam crianças correndo, jogos e usam pedidos de usuários para a compra de livros

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2016 | 03h00

Os irmãos Antônio, de 4 anos, e Miguel, de 1 ano e meio, correm até uma estante baixinha da Biblioteca Parque Villa-Lobos, na zona oeste da capital, e puxam a quantidade de livros que as mãos conseguem carregar. A poucos metros dali, jovens e adultos usam os computadores, outros leem e estudam. 

Tal como no Parque Villa-Lobos, outras bibliotecas têm investido em interatividade com os usuários, programação diversificada e horário ampliado para mudar a relação com leitores. Se antes o silêncio absoluto era lei em uma biblioteca, nos últimos anos essa relação vem se transformando. Gestores investem em estratégias para criar vínculos com os usuários e atrair leitores.

Para Antônio e Miguel, a biblioteca vira “playground”. Eles levam os livros até a oca, um espaço aberto no coração da biblioteca, e sentam em meio a almofadas e bancos coloridos. “O legal é essa mescla de livros e brinquedos em um lugar iluminado. Bem diferente das bibliotecas antigas, com ambiente fechado e escuro”, diz a mãe dos garotos e estudante de Veterinária, Ana Karina Avelhan, de 35 anos. “É importante trazê-los desde cedo. E poder brincar com os livros ao lado ajuda a mostrar para eles que ler não é chato.”



Para a estudante de obstetrícia Letícia Araújo, de 19 anos, a biblioteca é lugar de espairecer. Durante a semana, faz trabalhos da faculdade. Aos fins de semana, brinca de jogos de tabuleiro e de videogame do acervo com amigos. “Vivo cercada de livros, então gosto de aproveitar o que tem para fazer na biblioteca além do livro”, afirma. 

A ideia da administração, ao inaugurar a biblioteca no Parque, era exatamente ampliar os usos da biblioteca e elevá-la ao status de espaço cultural. “A gente brinca que a biblioteca é um parque temático, cujos temas são leitura e cultura. Mas se a pessoa quer ir à biblioteca para ficar sentada, apenas admirando, é bem-vinda. A biblioteca precisa ser espaço de liberdade”, explica Pierre Ruprecht, diretor da SP Leituras - organização social responsável pelas bibliotecas Villa-Lobos e São Paulo, no Parque da Juventude. 

Liberdade até para pedir a compra de determinada obra. Segundo Ruprecht, os sócios das duas bibliotecas podem indicar livros que gostariam de ter nos espaços. “Hoje, um terço do que é comprado e que está no acervo é indicação dos sócios. É uma atividade de relacionamento.”

Mesma estratégia adotou a Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital, que há quatro meses passou a funcionar 24 horas. Este ano, o espaço lançou uma campanha nas redes sociais e pediu a indicação de livros e filmes dos usuários para montar a programação de cinema do espaço. 

“Percebemos que essa interação é muito importante. O próprio público pode pautar parte da programação do espaço cultural. A lista dos livros que o público quer se transforma em lista de compras de títulos novos. Esse é um fenômeno recente de tentar criar vínculos com usuários”, diz o diretor da Biblioteca, Luiz Armando Bagolin. 

Com o atendimento 24 horas, a biblioteca viu a frequência diária dobrar de 1,2 mil para 2,5 mil usuários. O número de empréstimos cresceu 20% em relação a março, último mês antes do período de adaptação para o funcionamento ininterrupto.

Também no centro da cidade, a biblioteca Monteiro Lobato, embora seja especializada em público infantojuvenil, oferece mesa com jogos de xadrez e tem programação até para idoso. Toda sexta-feira, a aposentada Maria Simões, de 90 anos, vai sozinha até o espaço para assistir shows de dança e canto, voltados para idosos, no teatro da biblioteca. “Acho que adoro mais essa biblioteca do que as crianças.”

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