Bento XVI nega ter acobertado pedófilos

Ratzinger sempre foi criticado por vítimas; na primeira declaração oficial após a renúncia, papa emérito fala em 'luta sem trégua' contra os abusos

O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2013 | 02h02

Após meses em silêncio, o papa emérito Bento XVI veio a público negar que tenha tentado encobrir casos de pedofilia durante seu papado (2005-2013). A defesa veemente faz parte dos primeiros comentários depois da renúncia, em fevereiro, e integram uma carta de 11 páginas enviadas ao ateu e matemático italiano Piergiorgio Odifreddi - que escreveu um livro sobre a crise na Igreja Católica, anterior à eleição de Francisco.

"No que se refere à menção de abuso sexual de crianças por parte de sacerdotes, somente posso, como sabe, reconhecer (o fato) com profunda consternação. Mas nunca tratei de encobrir esses casos", sustenta Bento XVI. Excertos da carta do ex-cardeal Joseph Ratzinger foram publicados ontem pelo jornal La Repubblica, com a permissão do papa emérito.

Ele destaca que não se pode usar os casos para manchar a imagem da Igreja e ressaltou que "lutou sem trégua contra pedofilia". "Se não é lícito se calar ante o mal dentro da Igreja, tampouco se deve calar sobre a grande estrela luminosa de bondade e pureza que a fé cristã deixou ao longo dos séculos", disse. "O fato de o mal penetrar a tal ponto no mundo interior da fé é para nós um sofrimento que, por um lado, não podemos suportar e, por outro, nos obriga a fazer o possível para que não volte a se repetir."

É a primeira vez que ele responde diretamente, em primeira pessoa, às acusações, ainda que o Vaticano sempre tenha dito que o ex-pontífice fez muito para pôr fim aos abusos sexuais. Também foi a primeira declaração oficial desde o fim do pontificado, em 28 de fevereiro. Atualmente, Ratzinger vive em um monastério dentro do Vaticano e, apesar de contribuir com textos do papa Francisco e ter vários encontros com o sucessor, evita dar declarações.

Grupos de vítimas de pedofilia sempre acusaram Ratzinger de não ter feito o suficiente para deter os abusos sexuais por parte de sacerdotes. Alegou-se por várias vezes que teve conhecimento de casos enquanto liderou a Congregação para a Doutrina da Fé, no pontificado de João Paulo II.

Entre todos os testemunhos levantados, ganhou destaque em 2010 uma carta em latim obtida pela agência Associated Press, na qual se alegava o "bem da Igreja" para o não afastamento de um religioso. A carta, de 1985, fazia parte de uma troca de correspondência, que durou anos, entre o Vaticano e a Diocese de Oakland, na Califórnia, sobre a destituição do padre Stephen Kiesle, acusado de pedofilia. O Vaticano nunca negou a autenticidade do texto, mas disse que a declaração do papa foi "tirada de contexto".

Fé e razão. Na mesma correspondência, em resposta ao livro Querido papa, te Escrevo, Bento XVI ainda faz uma defesa da doutrina católica e da figura histórica de Jesus. Entre os pontos em destaque está a guerra entre o bem e o mal e a relação entre fé e razão. O teólogo alemão assevera que "a matemática é a única ciência no sentido mais restrito da palavra", mas Odifreddi deve reconhecer que "no âmbito histórico e filosófico, a teologia produziu resultados mais duradouros". / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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