Benigno com aspas

Ney Matogrosso contou no Roda Viva que era garotinho quando um padre lhe perguntou se fazia saliência com meninas. Diante da negativa, o confessor arrochou o saca-rolhas: e com meninos? Ney levou um susto: como é que nunca tinha pensado nisso?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2011 | 00h00

Em Belo Horizonte, onde me criei, saliência era outra coisa. Este menino está muito saliente, dizia minha mãe se eu me mostrava por demais exibido. Custei a saber que a palavra designa também certo tipo de assanhamento, nos casos que, além de saliências, envolvem reentrâncias.

O frei Benigno, que tive a infelicidade de ter como confessor na puberdade, também não sabia. Pelo menos punha a questão em outros termos: pecou contra a castidade? Quantas vezes? Embora eu me confessasse todos os domingos (durante a missa, para que não houvesse tempo de pecar antes da comunhão), tinha sempre uma cifra de dois dígitos em meu prontuário espiritual. Sozinho ou acompanhado? - esmiuçava o padre, que, ao contrário do confessor do Ney, nunca se interessou em saber se com menina ou menino. Minhas respostas pareciam cair em seus ouvidos como chumbo derretido, pois a cada uma se seguia um gemido, de modo a deixar claro que meus pecados eram adagas em brasa a trespassar o coração do Criador, ali representado pelo frei Benigno.

Não o escolhi. Dos padres da igreja do Carmo, era quem mais frequentemente ocupava o confessionário. Talvez porque, velhinho, já não desse conta de rezar missa sem atrasar a seguinte. Eu torcia para que fosse outro o interlocutor quando se abrisse a janelinha. A treliça não deixava ver a cabeça branca, os olhos azuis e a pele muito alva de seu rosto, sob a qual finíssimos vasos sanguíneos estampavam um rendilhado rubro. A esperança evaporava quando a mim chegavam aquele hálito ruim e a voz tão débil que parecia prestes a se apagar - em chocante contraponto com a acidez e o peso das ameaças que o frei Benigno despejava sobre o confidente. O Inferno seria pouco para mim.

E tome penitência, em doses cada vez maiores. Dez padres-nossos e dez ave-marias. Depois, todo um terço, que em pouco tempo inchou para "um terço com muita devoção", na suposição talvez de que o da semana anterior fora rezado sem devoção alguma, mecanicamente, a cabeça quem sabe mais ligada no futebol da tarde, para não imaginar dispersão ainda mais pecaminosa. Ou simplesmente seria como essas comidas que podem vir com ou sem molho?

O fato é que um dia o confessor - já àquela altura, a meus olhos, no mínimo "Benigno", assim com aspas, tamanho o mal que me fazia - deu de prescrever nada menos de um rosário, com seus três intermináveis terços. Com muita devoção, daí a pouco. Por mais que a reza galopasse, não dava para liquidar tão obesa fatura antes da comunhão, a menos que começasse eu próprio a recorrer às aspas, a um idem ibidem que o Senhor por certo não aceitaria como paga.

Que fazer?, diria Lênin. Passei a ir até onde desse e a comungar por conta, deixando o resto para rezar mais tarde. O que, evidentemente, jamais acontecia. Comecei a anotar as penitências faltantes num caderninho, para não esquecer e deixar claro para Deus onisciente que eu não pretendia dar calote na dívida espiritual. Desse pecado não poderia ser acusado. Devo, não nego. Inadimplente, porém correto. Mas haja caderninho.

Até o dia (já contei isso?) em que, como um país do Terceiro Mundo, não tive saída senão chutar o santo balde e declarar moratória. Me dei por suficientemente rezado, e até mais do que isso: cheguei à conclusão de que rezara muito mais do que teria sido necessário para purgar meus inocentes, quase veniais pecados, praticados, afinal, com a atenuante de uma triste solidão. Se assim foi, passara eu de devedor a credor, com direito, por que não?, a queimar a sobra com mais pecado, se possível a dois, até fechar as contas. Queimei também os caderninhos, mas, tantas décadas depois, creio que naquele deve/haver ainda tenho o que gastar. Estou aberto a sugestões.

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