Belorizontices

Não é o caso de contar de novo a história do médico que "transformava" mulher em homem, nem a do governador que mandou tapar com uma bandeira tremulante o brônzeo pingolim de uma estátua. Em matéria de histórias gozadas e/ou bizarras, a capital mineira é, como se lê à página 119 de meu O Pai dos burros - Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, "um manancial inesgotável". Duvida?

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2013 | 02h03

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O pintor Renato Augusto de Lima era do tempo - anos 50, 40, daí para baixo - em que para os belo-horizontinos, dizia, fazer turismo era alugar pé de jabuticaba na vizinha Sabará. Aos poucos, um mundo além-Sabará se foi abrindo para a mineirada itinerante. Quem não tivesse caixa podia se inteirar do vaivém da grã-finagem municipal na leitura de Wilson Frade e Eduardo Couri, os colunistas mais prestigiosos da imprensa local. Fulaninha está em Roma. Sicrano, de malas prontas para um séjour em Paris. Beltrano & Sra. regressaram de Lisboa.

- Gente - não se conteve um dia o pintor -, deve estar dando jabuticaba na Europa!

(Se você leu o romance O Encontro marcado, de Fernando Sabino, saiba que lá está um pouco de Renato Augusto de Lima, "pequeno e de cavanhaque", inspirador do delegado de polícia que volta e meia mandava prender na madrugada belo-horizontina três jovens arruaceiros, talentosos aspirantes à literatura com os quais costumava tomar um trago nos finais de tarde - Mauro, Hugo e Eduardo, calcados em Hélio Pellegrino, em Otto Lara Resende e no próprio Sabino. Mandava prender - e depois se pegava com os rapazes em altercações literárias através das grades, não fosse ele, na vida real, filho de poeta, o parnasiano Augusto de Lima: "Superado, o parnasianismo? Ora, vamos deixar de bobagens, meninos! Depois de Bilac o que foi que houve no Brasil, hein?" Vingança dos moleques: trancar o portão da casa do delegado com "um rosário de cadeados". "Vocês ainda se estrepam comigo", advertia o doce Renato logo mais, no botequim.)

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Esta aqui quem conta é Sônia Lins em Baticum, livro que, como as Memórias de um delegado de polícia de Renato Augusto de Lima, merece mais leitores. Sônia - aliás, irmã da artista plástica Lygia Clark - reuniu lembranças e casos de Belo Horizonte, muitos deles deliciosos. A história, por exemplo, do cidadão que se rebelou quando a prefeitura, tendo decidido pôr ordem no pavimento das calçadas, criou mais um imposto. Não foi o único a protestar. Centenas o fizeram, mas ao cabo de alguma grita todos se curvaram ao rigor do fisco. Todos, menos nosso personagem, que, mesmo derrotado na Justiça, não entregou os pontos: "Jurou aos vizinhos", conta Sônia Lins, "jamais colocar os sapatos em cima do passeio defronte a sua casa". Mas como entrar e sair da toca? Problema nenhum, disse o homem - e arranjou uma tábua, improvisada pinguela que lhe permitia transitar entre o lar e o mundo sem pisotear o próprio orgulho. Depois que saía, um dos filhos recolhia a tábua. Na volta, punha-se ele a berrar até que alguém lhe lançasse a ponte. Sônia Lins não informa se, morto o cidadão, também a família levou às últimas o juramento do falecido, instalando a pinguela para a derradeira travessia.

(Como em Minas uma boa história nunca vem sozinha, também aqui façamos um adendo. O pai de Sônia, Dr. Jair Lins, advogado famoso, foi certa vez chamado para defender Olimpia Vasquez García, espanhola que vinha a ser a cafetina-mor da capital mineira - uma "grande belorizontal", qualificou-a Pedro Nava, "temida pela valentia, pela impunidade e pelas misteriosas proteções de que dispunha". Não se fica sabendo o que aprontou daquela vez a Olimpia, que em seu cabaré - é ainda Nava quem relata - usava como arma um pé de meia recheado com bolas de bilhar. Seja lá o que tenha feito, escapou do xilindró - e, reconhecida, ofertou ao defensor duas beldades do seu plantel. Dr. Jair declinou, esclarecendo que estava bem servido em casa. A cafetina então sacou, em vez de duas moças, dois mutuns - apetitosos galinhões que o doutor não viu razão para enjeitar.)

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