Bebê e três pessoas morrem em chacina na zona leste de SP

De acordo com testemunhas, dois carros pararam próximos a uma praça na Rua João Tavares, na região da Vila Jacuí

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2015 | 09h00

Atualizada às 22h19

SÃO PAULO - Manuela Costa Romagnoli, que completaria dez meses na semana que vem, morreu nesta segunda-feira, 2, atingida por uma bala perdida, em uma favela na região da Vila Jacuí, na zona leste de São Paulo. A criança estava dentro de casa, sentada no sofá com o pai, que cantava para ela dormir, quando um disparo atravessou a parede de madeira e acertou a cabeça da menina, na altura da orelha direita.

Fora do barraco, outras quatro pessoas também foram atingidas, vítimas de uma chacina: três morreram e uma ficou gravemente ferida. Entre elas, ao menos dois menores.

A chacina aconteceu ainda nos primeiros minutos de ontem, nas imediações da Rua João Tavares, onde meia dúzia de jovens se reunia. “A gente tinha comprado Coca-cola e bolacha e estava sentado, conversando”, conta um dos sobreviventes, que não quis se identificar.

Entre seis e sete suspeitos teriam descido de dois carros, encapuzados, disparado contra o grupo. “Já chegaram atirando, quando a gente estava de costas”, diz. Apesar do ataque surpresa, parte das vítimas conseguiu correr após ouvir os primeiros tiros. Quatro deles, não. Na confusão, uma das balas acertou uma casa vizinha. Lá, estavam Manuela, os pais e uma irmã de sete anos.

“Primeiro, achei que eram fogos de artifício. A menina tinha ido um pouco para frente e, quando voltou, estava toda ensaguentada”, conta Wilson Romagnoli, de 48 anos, pai de Manuela. “Eu peguei a criança no colo e corri para a rua. Só conseguia gritar: ‘Não! Não! Não!’ Ela desfaleceu no meu colo.”

Romagnoli, que é pedreiro, mas trabalha durante os fins de semana como feirante, havia preparado um domingo especial. Decidiu não ir à feira para fazer um churrasco para a família. Até o momento do crime, todos eram só alegria. “O sorriso dela é a melhor lembrança que vai ficar.” Manuela chegou a ser levada ao hospital, mas já deu entrada sem vida. Os estilhaços de madeira, provocados pelo disparo, ainda feriram o rosto da irmã dela, Vitória.

A mãe das crianças, Tatiane Costa Romagnoli, de 34 anos, estava na cozinha quando o tiro atravessou a sala. “Essa bala levou meu sonho, minha felicidade, minha alegria”, diz. Ela está grávida de cinco meses, mas ainda não sabe o sexo da criança. “Sinceramente, agora queria que viesse uma menina. Mas o que Deus mandar está bom”, diz o marido.

Tiros. Logo após atirarem, os suspeitos fugiram. “As crianças (os rapazes) ficaram estiradas no chão, gritando por socorro. Diziam que não queriam morrer”, conta uma moradora da região, que se identificou apenas como Aline. Testemunhas relatam que a ambulância teria demorado pelo menos meia hora para chegar ao local e, por isso, as vítimas tiveram de ser socorridas por um vizinho. Ele as levou até o Hospital Ermelino Matarazzo, também na zona leste, em uma van.

Os irmãos Matheus Lemos Cordeiro, de 15 anos, e Edivan Lemos Cordeio, que estava sem documento de identidade, além de Gabriel Silva Soares, de 14 anos, morreram no hospital. Atingido com vários tiros, Almir Donato Domiciano, de 19 anos, foi transferido para o Hospital do Tatuapé, onde foi internado em estado grave, com risco de morte. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a família não autorizou divulgar a atualização do seu estado clínico.

De acordo com informações do boletim de ocorrência, policiais civis do 63.º Distrito Policial (Vila Jacuí) foram até o local do crime mas não conseguiram colher informações sobre o motivo da chacina nem encontrar testemunhas. Na favela, diz o documento, “impera a ‘Lei do Silêncio’” - quando moradores temem represálias caso contribuam com as investigações.

Nem vizinhos nem a Polícia Civil confirmam se na região funciona algum ponto de venda de drogas. Supostas ameaças de policiais também não foram confirmadas.

Ainda segundo o boletim, Domiciano tem antecedentes criminais e os dois menores também já cometeram atos infracionais. O caso vai ser investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

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