Thiago Teixeira/AE
Thiago Teixeira/AE

Beatriz cuida de cada detalhe do Municipal

Diretora do teatro desde 2008, ela é ao mesmo tempo governanta, ouvidora e gerente

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

Alguém esqueceu duas xícaras usadas na varanda do Teatro Municipal. De cabelos vermelhos, casaco marrom, calça marrom, sapato marrom e cachecol vermelho, Beatriz Franco do Amaral vem caminhando pelo Salão Nobre, abre os janelões que dão direto para a varanda, avista a Praça Ramos de Azevedo lá fora e... aquelas duas xicarazinhas brancas bem no meio da paisagem. "Meu lado governanta não pode ver isso", diz de brincadeira, mas não muito. "Não. Não dá", completa, séria, já dando meia volta, segurando as duas xícaras e fazendo menção de procurar rapidamente o culpado.

Beatriz tem 56 anos e é diretora do Teatro Municipal de São Paulo desde 2008 - onde passa de 10 a 12 horas por dia. Anda às voltas com a preparação das comemorações do centésimo aniversário do teatro, no dia 12. Até setembro do ano que vem, serão 12 meses de programação especial, com concertos, balés e óperas do mundo inteiro. "Você não sente que tem uma relação com esse teatro? Todo mundo sente um pouco isso. É engraçado."

Talvez não todo mundo, mas esse sentimento especial com o teatro ela certamente tem: desde pequena, saía com a mãe da casa onde moravam, no Jardim Paulistano, zona sul, para ver os concertos do Municipal. Até hoje, depois do expediente, troca de roupa em sua sala e vai ver pelo menos a estreia de cada espetáculo da casa. Sempre com um olho no padre, outro na missa. "Vou como espectadora, mas sento perto da saída. Se acontece algum problema com um músico, com alguém na plateia ou na bilheteria, saio para resolver", explica.

Ela também resolve tudo nas duas rondas diárias que faz pelo Municipal, dando conta das xícaras esquecidas, do tapete puído, do piso de madeira desgastado, do banner do lado de fora que revirou com o vento. Disca um número: "Oi. O banner virou." Também olha ao redor e repara se as ruas ao lado estão devidamente policiadas, a praça iluminada, as calçadas limpas. Disca outro número. "Vocês podem vir jogar uma água de novo?" E eles vêm.

O restante das decisões vai aparecendo em 320 e-mails por dia e quatro reuniões, nas quais delibera desde a compra de um instrumento até o que servir de jantar no intervalo de um concerto que vai durar quatro horas. Chega a Vera, da bilheteria, com dois modelos de ingressos para a ópera Rigoletto, que vem para o teatro em setembro. São idênticos. Beatriz escolhe um, troca "convidado" por "convite" e fica tudo certo.

O orçamento de R$ 52 milhões em 2011 que ela administra é o maior que o teatro já teve. Para dar conta de saber tim-tim por tim-tim para onde vai cada centavo, ela leva os contratos para casa no fim de semana para trazer todos lidos e rubricados na segunda-feira.

Os contratados, porém, não têm essa colher de chá. A mesa de Beatriz tem dois óculos de grau separados em um canto. São para visitantes. "Quando alguém chega aqui dando desculpa que vai ler depois, que não pode assinar agora porque esqueceu os óculos, eu ofereço: um ou três graus?"

Sempre que pode, Beatriz também responde os e-mails do público, geralmente reclamações sobre as instalações do Municipal. "Não tem corrimão para os idosos", diz um. "Falta banheiro", reclama o outro, no que ela responde prontamente, explicando que o prédio é tombado, o que dificulta a mudança nas estruturas.

Outro dia, uma pessoa escreveu que estava chateada porque, depois de um espetáculo, apagaram as luzes do banheiro enquanto ela ainda estava lá. No dia seguinte, tudo quanto é funcionário do Municipal leu na caixa de e-mail a DETERMINAÇÃO (assim, em letras maiúsculas) para que todas as luzes permanecessem acesas por uma hora após o término de cada apresentação. Não só dos banheiros, do teatro todo.

Beatriz, que antes de assumir a diretoria do teatro foi assessora institucional da Secretaria Municipal de Cultura, ainda espera pela transformação do Municipal em uma fundação e pela transferência da gestão para uma organização social (OS). A medida está prevista em lei sancionada pelo prefeito Gilberto Kassab (sem partido) em maio. "Meu maior problema não são os músicos, a programação, nada. É a burocracia. Tudo exige processos, licitações. Com a fundação, acho que vai melhorar."

O que eles pensam

ABEL ROCHA

MAESTRO E DIRETOR ARTÍSTICO

"A gente briga muito, mas é saudável. Eu gasto dinheiro, ela administra o orçamento. Não posso aceitar todas as limitações nem ela meus devaneios"

CARLOS AUGUSTO CALIL

SECRETÁRIO MUNICIPAL DE CULTURA

"Ela foi fundamental para o sucesso do restauro por perceber a importância do Municipal para São Paulo. O teatro tem essa capacidade de sequestrar as pessoas que trabalham lá dentro"

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