Beatificação de Nhá Chica atrai 30 mil fiéis

Festa da nova beata continua hoje com missa de ação de graças em Baependi, que entra no roteiro religioso de Aparecida e Guaratinguetá

JOSÉ MARIA MAYRINK, ENVIADO ESPECIAL, BAEPENDI (MG), O Estado de S.Paulo

05 Maio 2013 | 02h03

Demorou mais de um minuto para a multidão perceber que Nhá Chica já era beata e aplaudir a declaração do cardeal Angelo Amato que lhe dava esse título em nome do papa Francisco. Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, o cardeal leu um texto em latim, em seguida traduzido para o português, no qual informava que o pedido de beatificação, feito por d. Diamantino Prata de Carvalho, bispo de Campanha, havia sido atendido.

"Viva a nova beata Nhá Chica!", gritou d. Diamantino ao microfone. Foi então que o povo bateu palmas agitando bandeirinhas brancas com a imagem dela em fundo azul. Eram cerca de 30 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. A missa começou pontualmente às 15 horas, sob sol a pino, todo mundo suando muito e disputando as garrafas de água mineral distribuídas por voluntários.

Após a declaração de que Nhá Chica já era beata, a professora Ana Lúcia Meirelles Leite, acompanhada de sua neta Laura, de 9 anos, aproximou-se do altar e entregou ao cardeal Amato uma relíquia da santa, um pedaço de osso do antebraço que será levado para o Vaticano. Ana Lúcia é a beneficiária do milagre aprovado para a beatificação. Ela sofria de defeito congênito no coração e deveria ser operada após sofrer uma isquemia. Os médicos cancelaram a cirurgia, ao constatar que ela estava curada, alegadamente por intercessão de Nhá Chica.

Na homilia de 13 minutos, o cardeal Amato exaltou as virtudes de Nhá Chica sem se referir ao milagre. Lembrou a origem e a vida humilde de Francisca de Paula de Jesus, neta de escrava e filha de ex-escrava, que viveu em Baependi vida de monja sem ter entrado num mosteiro. "Nhá Chica rezava muito, era adoradora do Santíssimo Sacramento e tinha profunda devoção a Nossa Senhora", lembrou o cardeal, convidando os fiéis a imitar o exemplo da nova beata.

O cardeal-arcebispo de Aparecida, d. Raymundo Damasceno Assis, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), participou da cerimônia. O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, representou a presidente Dilma Rousseff. O governador de Minas, Antônio Anastasia, disse ter a esperança de que Nhá Chica seja a primeira santa nascida no Brasil, pois até agora só existe um santo, Frei Galvão de Sant'Anna Galvão. É pouco provável que seja Nhá Chica, pois o processo de canonização da baiana Irmã Dulce, beatificada em 2011, está mais adiantado.

"A festa não termina aqui, pois amanhã cedo vamos celebrar uma missa em ação de graças pela beatificação", anunciou d. Diamantino. Quando a missa acabou, às 17h30, formou-se uma fila no altar, diante de um banner com a imagem de Nhá Chica, de pessoas que queriam beijar sua relíquia.

Roteiro. Baependi deverá entrar no roteiro religioso de Aparecida e Guaratinguetá, cidades respectivamente do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida e de Santo Antônio de Sant'Anna Galvão, que ficam a 140 km de distância. "Não se pode comparar com Aparecida, nem queremos isso, mas com certeza Nhá Chica vai atrair muitos devotos", disse d. Diamantino. Um dos próximos beatos deverá ser o padre Francisco de Paula Victor, negro e descendente de escravos como Nhá Chica, e também de Minas.

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