TIAGO QUEIROZ / Estadão
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Barulho das obras da Linha 6 - Laranja do Metrô tira sono de vizinhos: 'Durmo só 3 horas por noite'

Irritados com ruídos dia e noite, moradores da Pompeia e de Perdizes fazem abaixo-assinado e até se mudam de casa; concessionária afirma adotar medidas para reduzir transtornos

Isabela Moya,, especial para o Estadão

06 de abril de 2022 | 05h00

Barulho de geradores, sirenes, apitos, caminhões e guindastes 24 horas por dia. É assim que moradores dos bairros de Perdizes e Pompeia, na zona oeste de São Paulo, descrevem o dia e a noite em suas residências desde 2021, com o retorno, após quatro anos, das obras para a construção da Linha 6–Laranja do Metrô, que ocorrem até nas madrugadas. A entrega do novo ramal está prevista para 2025.

Os vizinhos alegam não conseguir dormir e pedem pelo fim do ‘3.º turno’ das obras. Lucas Baccelli, de 38 anos, empresário e subsíndico de um dos prédios próximos da futura Estação PUC-Cardoso de Almeida, em Perdizes, diz ter entrado com pedido no Ministério Público para investigar crime sonoro, e há ainda abaixo-assinado com adesão de mais de 150 moradores. A vizinhança diz não ser contra a obra, mas pede para que ela seja feita só durante o dia.

“Durmo três horas por noite”, diz Baccelli. Ele relata ter sua saúde física e mental afetadas. “Comecei a ter sintomas gastrointestinais, fiz vários exames, mas todos foram ótimos. Contei ao médico que estava dormindo pouco por causa do barulho da obra e ele me disse que os problemas gastrointestinais podem advir da ansiedade, que adquiri por não conseguir descansar”, afirma o empresário, que também tem a rotina de trabalho prejudicada, por fazer home office. 

Carla, que pediu para não usar o nome verdadeiro, mora próximo de Baccelli, no prédio ao lado da obra, e decidiu se mudar do próprio apartamento, mesmo sem saber se vai conseguir alugá-lo. Ela, de 31 anos, relata que o estresse causado pelo barulho tem prejudicado não só a saúde dela e do marido, como também a tentativa deles de ter um filho.

“Desenvolvi colesterol alto sem ter nenhum outro fator associado, então o médico constatou que era pelos picos de estresse. E meu marido teve muitas crises de ansiedade, e também precisou entrar com medicamento.” Os remédios que eles tomam, diz Carla, podem atrapalhar a fertilidade. O casal chegou a instalar janelas antirruído, que não vedaram completamente o barulho.

Ela comprou um medidor de decibéis, e conta que o ruído diário costuma alcançar mais de 70dB à noite, já tendo chegado a 105db em um dia. Na cidade de São Paulo, é proibido que obras gerem ruídos acima de 59db depois das 19h. A Prefeitura, contudo, informou que obras públicas não têm limite de horário ou ruído. Em Perdizes e na Pompeia, moradores relatam que vários vizinhos têm procurado se mudar, entregando ou colocando apartamentos para vender, e contam que locatários reclamam da dificuldade em alugar imóveis nos bairros.

Alergia, mudança de horário e remédio para dormir

Vizinha de Carla, a dentista Aline Ferreira, de 36 anos, conta que os problemas respiratórios e alérgicos têm aumentado por causa da grande quantidade de poeira que entra no apartamento. Mas o que mais incomoda sua família é o barulho de conversas na madrugada vindo da casa de apoio aos trabalhadores da obra. “Todo dia acordo com dor de cabeça. Chego no trabalho sonolenta, não consigo ter o mesmo desempenho”, diz Aline, cuja filha de 12 anos tem autismo, e acorda diversas vezes na madrugada. 

“Como a maioria dos autistas, ela tem sensibilidade auditiva. Fica mais nervosa, estressada. Tivemos de trocar o horário da escola dela do período da manhã para a tarde, para ver se ela consegue dormir um pouco mais”, acrescenta.

A situação de Flávia Angi, de 48 anos, que mora a um quarteirão da futura Estação Sesc-Pompeia, também na zona oeste, é parecida. A fisioterapeuta relata que ela e os filhos passam o dia de fone de ouvido, seja para trabalhar ou escutar músicas que disfarcem os ruídos externos. “Mas o que mais a incomoda é a madrugada. Fica difícil dormir. Às vezes tenho de tomar remédio indutor de sono, e uso tampão, mas nem sempre resolve, porque quando está calor, não consigo fechar a janela”, conta.

Síndica de um prédio na rua Cardoso de Almeida, Jacqueline Toledo também reclama que as obras da futura Estação Sesc-Pompeia trazem diariamente barulho e poeira para dentro de seu apartamento. Ela conta ainda ser impossível dormir sem fechar todas as janelas, uma vez que as luzes do local ficam acesas à noite. "Tem noite que não dá pra dormir de jeito nenhum", reclama Otaviano Zanfelice, de 55 anos, que é consultor imobiliário e subsíndico de outro edifício da região. 

Concessionária diz cumprir lei e tomar medidas para minimizar impactos

A Linha Universidade, concessionária responsável pelas obras por meio de parceria público-privada (PPP), informou cumprir a regulamentação referente aos níveis de emissão sonora em obras civis. Disse ainda que as empresas envolvidas informam antecipadamente a possível ocorrência de ruídos no entorno, além de adotar medidas mitigadoras como a manutenção periódica dos equipamentos, atenuação do sinal sonoro dos caminhões e guindastes e instalação de barreira acústica. Segundo a empresa, também há treinamentos com os colaboradores sobre o comportamento adequado nas atividades noturnas. Sobre o turno da madrugada, não deu previsão de término, mas disse que o trabalho neste horário é essencial para as obras da linha, que transportará mais de 630 mil pessoas por dia. 

Já a Secretaria de Transportes Metropolitanos disse que, conforme o contrato, a concessionária deve seguir a lei e as boas práticas referentes a barulho em obras civis na cidade e, entre outras ações, “informar antecipadamente aos moradores do entorno sobre a possibilidade de ruído próximo canteiros e adotar medidas mitigadoras” nas atividades à noite. 

Expansão da Linha 2 Verde também motiva queixas da vizinhança

Na zona leste, moradores no entorno das obras do parque linear do Complexo Rapadura reclamam das obras de expansão da Linha 2-Verde, que ganhará 8,4 quilômetros. O barulho e o tráfego intenso de caminhões são algumas das queixas. 

“Era um parque de uso público, mas tudo isso foi retirado dos moradores, que agora andam nas ruas, ao lado dos caminhões, que correm em toda a velocidade”, diz a professora Marta Cavalcanti, de 52 anos, nascida e criada na região. Moradores falam ainda em falta de diálogo com a Companhia do Metropolitano de São Paulo. “O serviço de atendimento aos moradores é sem assertividade”, continua ela, que também vê risco de poluir o córrego no local.

“Tínhamos um verde incomparável aqui na região. Agora, olhar e ver a obra do jeito que está sendo tocada é de uma tristeza sem tamanho”, conta a aposentada dona Cleusa Spínola, que viveu 60 dos seus 67 anos na região. 

Procurado, o Metrô disse que, além de ter central exclusiva na Vila Formosa para atender quem mora perto da obra, já fez várias reuniões com os moradores e informa com antecedência atividades que podem afetar o entorno – obras são prioritariamente entre 7h e 22h, com exceções avisadas antecipadamente, e o tráfego de caminhões é autorizado pela Companhia de Engenharia de Tráfego. 

Ainda segundo o Metrô, as atividades no canteiro da Rapadura são licenciadas e fiscalizadas por órgãos ambientais, tem contenção e tratamento de efluentes, sem despejo de resíduos no córrego ou via pública. O Estadão não conseguiu contato com o Consórcio Metrô Linha 2 (CML2). /COLABOROU JOÃO KER

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