Barracas viram casa de moradores de rua

Uns dizem ter comprado equipamento, que custa entre R$ 50 e R$ 100; outros, que ganharam; Guarda Civil afirma que montagem é proibida

Bruno Lupion, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

   

 

Para tentar driblar o inverno paulistano e o corte de vagas nos albergues municipais, alguns moradores de rua estão usando barracas de camping para dormir nas ruas de São Paulo. A reportagem flagrou as "instalações" em três bairros da capital paulista na madrugada de ontem. Questionados, eles disseram que compraram ou ganharam as barracas de amigos.

Uma barraca do tipo iglu pequena, para duas pessoas, custa entre R$ 50 e R$ 100, dependendo da marca e da qualidade do material. A instalação de barracas ou qualquer outro abrigo nas ruas é proibida e fiscalizada pela Guarda Civil Municipal (GCM).

Segundo um dos moradores de rua, faltam vagas nos abrigos e, mesmo quando estão disponíveis, as condições são tão precárias que é preferível viver na rua. Ele também disse que a GCM permitia a montagem da barraca após as 22 horas. Já a corporação informou que "a afirmação da reportagem não condiz com as orientações da pasta quanto à liberação de barracas". E que a determinação é para que a GCM atue sempre na proteção e não na repressão.

Desde 2008, a Prefeitura desativou dois albergues no centro: o Jacareí (antigo Cirineu), com quase 400 vagas, e o Glicério (conhecido como São Francisco), com 300 leitos. Segundo Isa Magalhães, do Instituto Lygia Jardim, que tem um albergue no centro, a demanda já era maior do que a capacidade antes do corte. "Temos cem vagas e a casa está sempre lotada. A procura no portão é bastante alta."

No entanto, a Secretaria Municipal de Assistência Social afirmou que os centros de acolhida Jacareí e Glicério foram desativados porque funcionavam sob viadutos, o que não é permitido por lei, e não ofereciam condições de segurança aos usuários e funcionários. Segundo a pasta, todos foram encaminhados para outros centros.

O órgão afirmou que nos últimos três meses foram inaugurados novos centros, com 410 leitos, e que serão abertos mais dois: o Espaço de Convivência Bela Vista e o Centro de Acolhida Especial para Mulheres Brigadeiro. Até o fim do ano, haverá outros cinco, somando 780 vagas. A secretaria informou que, no inverno, amplia as vagas em 20% e destaca 400 profissionais para abordar a população de rua.

Alternativa. O padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, afirma que já houve tentativas de criar opções de moradia de montagem e desmontagem rápidas, mas não deram certo. "O que acontece é que a GCM vai tirar a barraca deles", afirma. "Se eles não podem usar nem um papelão para dormir, que dirá uma barraca de camping?"

Nos últimos dez anos, o total de pessoas que vivem em situação de rua em São Paulo cresceu 57%. Entre essa população, 51,8% (7.079 pessoas) dormem em albergues municipais, enquanto 48,2% (6.587) vivem ao relento.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Wesley da Silva

LAVADOR DE PRATOS E MORADOR DE RUA

1. Como você arrumou a barraca?

Ganhei de um amigo. Moro na rua há 5 anos. É melhor do que dormir no chão. Corta o vento e me sinto mais seguro, (a barraca) protege da maldade das pessoas.

2. A que horas você monta a barraca?

Às 22h, e saio por volta das 6 horas. Antes podia montar às 19h30, ninguém reclamava, mas agora os guardas só deixam após as 22h. Deveria haver terrenos no centro autorizados para a gente acampar. Seria melhor para todo mundo, mais seguro.

3.Por que não vai para um albergue?

Morei em um em 2004, mas não gostei. O esquema é muito ruim. Tem de chegar às 17h e às 21h tudo fecha. Não encaminham para trabalho, não fazem profissionalização de verdade.

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