Barcelona, a cidade-ícone

Jogos de 1992 consumiram 2% do PIB espanhol, mas deixaram legado exemplar para o mundo

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2010 | 00h00

Quase 20 anos após realizar os Jogos Olímpicos de 1992, Barcelona e seus moradores ainda se beneficiam das obras feitas no fim dos anos 1980 e início dos 90. Usada como exemplo pelo mundo, a cidade passou por uma reforma completa. Mas sua principal conquista foi um novo Plano Diretor, que até hoje serve de base às obras e estratégias de crescimento.

"Não dá para imaginar como seria a cidade sem os Jogos Olímpicos. Há uma antes e outra depois", resume o aposentado Joan Manuel Cubilla. Para milhões de catalães como ele, Barcelona simplesmente pararia se não tivesse passado pelas reformas de 1992.

No século 20, a cidade passou por duas transformações. A primeira em 1929, para receber a Exposição Universal. Já entre 1986 e 1992, na preparação da Olimpíada, 2% do PIB espanhol foi destinado ao projeto que criou as bases para a cidade no século 21.

A primeira transformação foi a abertura da cidade ao Mar Mediterrâneo. A área próxima ao mar era ocupada por galpões e fábricas, o que barrava o acesso da população à praia. Um a um, os galpões foram derrubados, dando lugar a restaurantes luxuosos, hotéis e lojas. Aberta ao mar, a cidade passou a receber dezenas de cruzeiros, de todo o mundo. Hoje as obras ainda continuam, com hotéis cinco-estrelas sendo criados na região. E, em 20 anos, o número de quartos disponíveis na cidade se multiplicou por seis.

Uma transformação profunda ainda ocorreu no sistema viário. Com um traçado criado no início do século 20, a cidade recebia praticamente todo o tráfego da Europa para a Península Ibérica. Para os Jogos, a decisão foi a de criar nas periferias avenidas parecidas às marginais - as Rondas de Dalt i Del Litoral. Com elas, caminhões deixaram de passar pela cidade. Ainda foram construídos túneis nas montanhas.

Outra obra que marcaria a cidade seria a expansão do metrô, o segundo mais antigo da Europa. Nem todas as estações planejadas foram concluídas nos anos 90. Mas, depois disso, o traçado do metrô para novas regiões tem respeitado rigorosamente os planos estabelecidos na época.

A construção da Vila Olímpica também transformou a cidade. Antes com terrenos degradados e ocupados por ciganos, o local destinado aos atletas tornou-se uma das áreas mais valorizadas da cidade, com apartamentos com vista para o mar, ocupados por ricos espanhóis e por estrangeiros.

Para o estádio olímpico, as piscinas e os ginásios, o local escolhido foi Montjuic, a montanha-símbolo da cidade. Vinte anos depois, o estádio ainda é parada obrigatória para turistas e os ginásios e arenas têm agenda lotada de eventos esportivos, concertos ou espetáculos.

Saindo de meio século de uma ditadura que isolou a Espanha do resto da Europa, os Jogos Olímpicos de 1992 ainda ajudaram a dar nova imagem ao país. Graças em grande parte a Barcelona, o país é o que mais recebe turistas no planeta - supera a França em mais de 60 milhões de visitantes por ano.

Barcelona também salvou o próprio Comitê Olímpico Internacional. Os Jogos de 1992 resgataram o prestígio do evento centenário, sequestrado pela lógica da Guerra Fria e por crises financeiras. Nos anos 1960, 1970 e 1980, poucas cidades se atreviam a tentar receber os Jogos, temendo perdas colossais, como Montreal em 1976, ou ataques terroristas, como o de Munique, em 1972. Reduzido a uma entidade à beira da falência, sem prestígio e decadente, o COI usou o sucesso de Barcelona para provar ao mundo que Olimpíada pode ser um grande negócio.

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