Bar desrespeitou toque de recolher

"A noite chega e com ela o medo e o silêncio na Vila Brasilândia. Há um mês, a vida mudou no bairro da zona norte com a onda de ataques. As festas e as costumeiras rodas de amigos com som alto, normalmente de potentes alto-falantes de carros, não são mais vistas às sextas-feiras e aos sábados. Em vez disso, ruas ficam desertas e as casas, fechadas.

O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2012 | 02h02

'Nossa, faz muito tempo que não vejo agito nessas ruas. Dá até medo, nem os cachorros latem', diz uma moradora que prefere se identificar apenas como Preta. Não que ela gostasse do estilo de músicas da garotada, normalmente recheadas de palavrões. Mas o silêncio e a penúria a incomodam. 'É melhor o barulho.'

Por 'recomendação' de motoqueiros misteriosos, moradores do bairro têm sido obrigados a evitar festas e mesmo permanecer nas ruas até mais tarde. O comércio também cumpre a sugestão e baixa as portas mais cedo. Às 21 horas, o bairro parece estar no meio da madrugada.

O ataque de ontem na Estrada do Sabão, segundo moradores, foi contra um bar que desafiou as ordens. Foi avisado três vezes pelos bandidos que tinha de fechar. Durante a madrugada, motoqueiros atiraram contra o local, atingiram seis pessoas e mataram quatro.

O toque de recolher que a Polícia Militar nega existir é visível no bairro. Se um morador precisar hoje à noite de farmácia, ele terá de ir até a vizinha Freguesia do Ó. E encarar ruas desertas e sombrias. Na Brasilândia, ninguém ousa manter o expediente.

Até as pizzarias da região andam se precavendo. Uma delas, com horário alternativo até 1h, anda trabalhando 'de acordo com o clima', segundo um de seus entregadores. O motoboy revela estar com medo na hora das entregas e assume: 'Estamos parando de trabalhar mais cedo e evitando algumas vilas mais perigosas. Tem dia em que nem vamos à pizzaria'.

Dias atrás, pouco antes das 22h, a cobradora de um ônibus da Linha 9789 (Barra Funda/Jardim Paulistano) não hesitava em anunciar para quem via nas calçadas: 'Última lotação, é toque de recolher. Não teremos mais viagens hoje', gritava, em alto e bom som, da janela do micro-ônibus.

As escolas, no meio da época de provas, também estão com problemas - especialmente nas aulas noturnas. 'No início dos ataques, fui para a escola e acabei dispensado por causa das aulas suspensas para preservar os alunos. Estamos terminando o ano e não foi normalizado, provavelmente pelo medo que ainda prevalece', conta um professor de Matemática.

'O diretor anda liberando a gente mais cedo e pede para irmos direto para casa', conta um dos estudantes do período da tarde na Escola Estadual Professor Jair Toledo Xavier.

Com o cair da noite, os passos ficam mais apressados na Vila Brasilândia. Não dá mais para parar para conversar com um amigo na rua. Papos de portão estão suspensos. O olhar de quem deixa a escola ou mesmo o trabalho é de atenção. Os carros agora são suspeitos e as motos viraram motivos de aflição. O pânico dá o tom em um bairro que vive à espera de 'novas ordens' que vêm do alto do morro."

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