Bandidos viram benfeitores em rede social

Penetração na web indica crescimento do tráfico na cidade, onde droga já é vendida até em padaria

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h04

No fim de maio, seis pessoas foram mortas em Cidade Tiradentes, na zona leste, depois de suposto confronto com policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). Segundo a polícia, os criminosos eram integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e planejavam resgatar um preso em um Centro de Detenção Provisória. Testemunhas revelaram depois que pelo menos um deles foi executado por policiais depois de ser detido e colocado no camburão.

Mas, apesar da longa ficha criminal dos mortos, em algumas página da rede social Facebook eles são vistos como benfeitores. Na mesma Cidade Tiradentes, José Arlindo, conhecido como Júnior, e Nego Anderson, duas das vítimas da Rota, apontados como principais líderes do PCC, tinham uma legião de fãs.

Um flyer ("santinho") em homenagem aos dois, divulgado logo depois da morte, foi compartilhado na rede social pelo menos 790 vezes, com milhares de mensagens de apoio. Foi divulgada a foto dos dois, acompanhada de texto dos Racionais MC's sob o título "luto". "O rei dos reis foi traído e sangrou nessa terra. Mais (sic) morrer como um homem é o prêmio nessa guerra", está escrito no flyer.

Na foto, Júnior aparece com um boné da Lacoste e com blusa da marca Ed Hardy. As grifes estão entre os fetiches mais cantados pelos grupos de funk da região, música que os dois gostavam e ajudavam a divulgar. Os comentários mostram que os jovens das comunidades os viam como benfeitores. "Que Deus os ponha em um bom lugar. Que falta vocês estão fazendo", está escrito em um comentário.

Como importantes traficantes do bairro, os dois ajudavam a animar os pancadões. Assim como as raves nos bairros mais ricos ou as baladas caras das danceterias, as noitadas dependem das substâncias ilegais para esquentar.

Lojinhas. O tráfico de drogas é hoje o crime que mais cresce no Estado de São Paulo, principalmente entre os jovens. Os acusados de tráfico já são a maioria dos internos na Fundação Casa e crescem em proporção geométrica nas prisões.

Desde o fim de 2006, quando o Primeiro Comando da Capital (PCC) parou a cidade e se consolidou como distribuidor atacadista de drogas no Estado, as "biqueiras" se multiplicaram principalmente nos bairros das periferias.

Um ex-traficante de Heliópolis, na zona sul, que começou no tráfico em 2002 e ali trabalhou até o ano passado, quando se tornou evangélico, conta que o crescimento das bocas foi exponencial. No começo do ano 2000, segundo ele, eram duas bocas maiores, que brigavam entre si. Atualmente, pouco antes de sair, o total de vendedores já havia passado dos 50. "É que agora eles não brigam", explica.

Ao contrário do que ocorria nos anos 1990, contudo, o comércio de drogas no varejo deixou as armas e os assassinatos de lado e aprendeu a conviver com a concorrência. Revólveres são proibidos e não podem ser usados pelos que trabalham nas bocas.

As "biqueiras" são chamadas de "lojinhas". Hoje já se vende droga em salões de cabeleireiro, postos de gasolina, bares e padarias.

Debates. Os traficantes são muitas vezes chamados para intermediar conflitos de moradores, nos "debates", espécie de julgamentos informais que já vêm sendo estudados por antropólogos e sociólogos nas universidades. Tornaram-se responsáveis por garantir a ordem local.

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