Balada paga em casa ganha adeptos na noite

Produtores convocam bandas de rock independentes e dão um jeito nos cômodos para receber amigos, 'chegados' e até completos desconhecidos

FELIPE FRAZÃO, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h04

Por telefone, a produtora de teatro Ciça Magalhães, de 32 anos, explica a uma amiga como chegar à balada. "Aqui é a Casa do Mancha?", ela pergunta, ao se aproximar da entrada - um portão de ferro em um muro grafitado na Rua Felipe de Alcaçova, na Vila Madalena, zona oeste da capital.

Mesmo sem aparência de residência e sem número na porta, ali é a casa onde mora o editor de vídeos Mancha Leonel, de 30 anos. E a mesma pergunta feita por Ciça repete-se dezenas de vezes aos sábados e domingos. É quando Mancha abre a porta até para desconhecidos curtirem a balada que ele organiza com o sócio - o produtor e professor de inglês Tomaz Afs, de 30 anos.

Essas festas informais, feitas com bandas independentes, só ganham adeptos na noite paulistana. A única exigência para se apresentar é tocar músicas próprias. "Quem faz som autoral é carente de lugar para tocar", diz Tomaz. "A curadoria é nossa", conta Mancha. "E a gente não abre mão disso, de fazer do nosso jeito."

Eles decidiram fazer assim: horário restrito das 17h às 23h, com show às 20h. A política de boa vizinhança evitou reclamações de vizinhos. A noitada cedo agrada a figuras como o texano Ezra Teter, de 32 anos. "Essa balada é anarquista como eu. Termina cedo, não precisa esperar até as 4h para escutar música."

Para receber amigos, chegados e desconhecidos, Mancha levou geladeira e sofás para a varanda e transformou a sala em palco e estúdio para bandas. "O quarto é o único lugar que não dá para liberar", diz ele.

Dúplex. No Baixo Augusta, até o quarto superior do Apartamento 80, festa na Rua Peixoto Gomide, era liberado. Mais que isso: ali ficava o palco. A balada recebeu até 175 pessoas em show da banda Los Pirata e André Abujamra. Foi aí que os três moradores decidiram limitar a frequência a 130. E não adiantava fila. Eles mesmos eram recepcionistas e fechavam quando o Apê 80 lotava. O motivo de atrair tanta gente? "Além da vista da cobertura, todo mundo era tratado como amigo, não tinha revista, podia fumar", diz o morador Luis Rodolfo Lopes, de 26 anos.

A badalação durou até meados deste ano. A imobiliária decidiu vetar as festas, alegando que eles usavam o apartamento com propósito comercial - cobravam R$ 20. "A gente fazia para movimentar um pouco a cena, com propósito cultural", diz o jornalista e ex-morador Jr Bellé, de 26 anos. "Mas também dava muito trabalho. Fazer festa em casa é um grande pepino."

Bellé e Rodolfo dizem que só apareceu polícia uma vez, na primeira festa, quando a banda tocou no terraço, ao ar livre. Mas, dos vizinhos, não tinham reclamações. "Eles frequentavam as festas", lembra Bellé.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.