Bala perdida mata criança na sala de aula

Pelo menos outras seis pessoas morreram num confronto entre PMs e traficantes no Rio; à tarde, comandante do batalhão foi exonerado

Gabriela Moreira / RIO, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Uma criança de 11 anos foi morta com um tiro no peito quando estava dentro da sala de aula, no CIEP Rubens Gomes, em Costa Barros, no subúrbio do Rio, na manhã de ontem. O tiro que atingiu Wesley Rodrigues de Oliveira teria partido de um confronto entre PMs e traficantes, durante uma operação para reprimir o tráfico de drogas nas favelas da Quitanda, Costa Barros, Lagartixa, Pedreira e Terra Nostra.

Pelo menos outras seis pessoas, que seriam traficantes, morreram na ação. No fim do dia, o comandante do 9.º BPM (Rocha Miranda), coronel Fernando Príncipe, foi exonerado. Autoridades da PM divergiram quanto ao motivo da operação. Enquanto a assessoria da corporação informava que os policiais teriam ido à favela checar denúncias sobre traficantes, o então comandante do batalhão afirmava que a operação fora planejada e contou com 100 policiais.

"Como em toda favela, operações colocam em risco os moradores, mas a não realização dessas ações faz a comunidade ainda mais vítima", disse o comandante, que assumira o comando da unidade em maio, após ter sido exonerado do comando do 6.º BPM (Tijuca). Na época, após a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no Morro da Formiga, Príncipe disse à imprensa que "se tivesse posto um escoteiro no morro, seria mais do que suficiente (para a ocupação)"

Em nota, a PM informou que "um dos objetivos da mudança de comando é garantir total isenção e rigor na apuração dos motivos da operação, bem como do procedimento adotado, que resultou na perda irreparável para uma família". O novo comandante do batalhão é o tenente-coronel Luiz Carlos Leal.

Wesley chegou a ser levado por professores para o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, onde chegou morto. A notícia foi comentada pela secretária estadual de Educação, Cláudia Costin, no Twitter: "Criança nossa (...) atingida dentro da sala de aula, por bala perdida. Inaceitável. (...) Prof Rejane, em prantos, me contou o triste ocorrido e me lembrou que há 1 ano tiveram o mesmo problema."

Protesto. Em protesto, moradores atearam fogo em pneus para bloquear a entrada da favela. Mães de colegas do estudante estavam inconformadas com a morte. "A gente leva nossos filhos para a escola pensando que eles estarão seguros. E eles são mortos com tiro de fuzil", indignou-se Olinda Inácio do Carmo, de 37 anos, mãe de dois estudantes do Ciep.

Segundo ela, não é a primeira vez que a escola - entre as Favelas Terra Nostra, Lagartixa e Costa Barros - fica no fogo cruzado entre polícia e traficantes. Em junho, a festa junina do colégio teve de ser interrompida após uma perseguição de um PM a um traficante. "Os tiros cruzavam a fachada da escola", dizia Olinda, que foi interrompida pela notícia de que, naquele momento, o corpo de um vizinho havia sido encontrado em uma rua da comunidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.