GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Valéria França, Especial para O Estado

04 Novembro 2017 | 03h00
Atualizado 05 Novembro 2017 | 18h34

Quem frequenta o Baixo Augusta, na região central de São Paulo, já percebeu uma renovação acelerada no cenário. De um lado, a especulação imobiliária expulsa antigos casarões, pensões e clubes masculinos, que davam até um certo charme decadente à região conhecida pela boemia. Por outro, esse movimento atraiu novos negócios, restaurante e baladas, com empreendedores dispostos a investir mais em infraestrutura ou em projetos culturais inovadores.

De janeiro de 2013 a agosto desse ano, segundo a Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), foram registrados 18 lançamentos imobiliários com quase 3 mil novos apartamentos, localizados em modernos e imponentes espigões com mais de 20 andares. Isso fez o preço do metro quadrado saltar de R$ 6 mil para R$ 11 mil nos últimos sete anos. 

Junto com as novas moradias, chegaram projetos como o de Alê Youssef, de 42 anos, que aposta na capacidade da região em reunir novas expressões e tolerar a diversidade. Ex-dono do antigo Studio SP, casa que fechou as portas em 2013, Youssef inaugurou em 5 de outubro, na Rua da Consolação, a sede do Acadêmicos do Baixo Augusta, bloco fundado em 2009 por escritores, jornalistas, publicitários, atores, empresários e fãs da região, que misturam diversão e ativismo. Dessa vez, ele tem o papel de diretor do projeto que é coletivo. 

No mesmo endereço, o bloco também criou A Casa do Baixo Augusta, organização não governamental que funciona na sede do bloco, com espaço para shows e palestras com temas variados. A programação é gratuita e não conta com recurso público, “nem dinheiro de lei de incentivo”, ressalta seu diretor. 

“Ter um ponto de encontro é muito importante para que novas expressões e talentos se consolidem”, diz Youssef. Foi no seu Studio SP que bandas, na época alternativas, encontraram espaço para se exibir e crescer. Ali tocaram Tulipa Ruiz, Céu, André Frateschi, Karina Buhr e Criolo. “A ideia é ser uma espécie de ilha de reflexão crítica e de celebração contra o mar da caretice, neste momento de conservadorismo extremado”, afirma. “Falamos de ativismo, criatividade, cultura alternativa local e carnaval, quatro elementos que nos explicam.” 

O ator Leo Medeiros, de 52 anos, também escolheu o Baixo Augusta para criar um centro de reflexão e produção de novas formas de arte. Carioca com jeitão de paulistano, ele montou um minúsculo teatro, batizado de Teatro da Rotina, com capacidade para 30 pessoas, com companhia própria de atores, oficinas gratuitas e palco para shows. 

Para se apresentar ali, a banda precisa preencher pelo menos dois de três critérios exigidos pela curadora Biju Monteiro, do site de arte Embrulhador: ter relevância autoral, cultural e de público. Já passaram por lá nomes conhecidos da música como André Abujamra, Guizado Quarteto e Trio Solaris, mas o objetivo mesmo é abrir espaço para quem está começando.

Na Rua Augusta 1026, o Circus Hair é outro ponto que aposta na cultura e na moda. Construído para ser um moderno salão de beleza, tem bar, espaço para lançamentos de livros, oficinas de circo - há fitas e trapézios pendurados no teto - e sinuca.

Inaugurada há quase dois anos, esta é a terceira e maior unidade da marca. “Atender a maior diversidade possível de público tem tudo a ver com a missão da casa. Por isso, a sede foi aberta aqui”, diz Patrícia Saito, relações-públicas da casa. Ela explica: “Quando você faz um corte em um cliente daqui, rapidamente ele vira moda”.

Novo. O Baixo Augusta é efervescente e o público está sempre atrás de novidades. Ali, há todo tipo de restaurante, de comida coreana à grega, passando pela vegetariana e vegana, como o Pop Vegan Food, aberto em julho. Conhecido pela gastronomia autoral, o restaurante Jequitaia foi ampliado e abriu um bar que funciona de terça a sábado, com drinks da moda. Outra casa nova que faz sucesso com os coquetéis é o Home Bar SP, na Rua Matias Aires, travessa da Augusta que sempre está em festa. 

A multiplicação de bares e restaurantes mais arrumadinhos, porém, não agrada a todos. A produtora Eloise Morhange, de 33 anos, que mora em um apartamento da Praça Roosevelt, não aguenta mais o barulho. “Estou de mau humor. Tem bar que fica aberto até as 7 horas.” Mas não é só isso que contraria Eloise. “Desde que começaram a ser construídos esses transatlânticos terrestres (ela se refere aos prédios novos), um novo público, com cara de Jardins, começou a circular por aqui. Eles não saem dos carros e se incomodam com a pobreza da rua."

Um paradoxo entre condomínios e a ocupação das ruas

Enquanto o movimento cultural de revitalização do Baixo Augusta estimula a ocupação das ruas, com mesas na calçada e muita gente caminhando, um paradoxo se dá com novos empreendimentos imobiliários, que continuam subindo no formato de condomínios fechados, com completa estrutura de lazer, mas que isola o morador da rua.

“A Rua Augusta virou um boulevard”, diz o empresário Facundo Guerra, um dos sócios do Vegas, balada que fechou as portas em 2013. Guerra tem, entre outros negócios, o Bar Riviera. “Na verdade, ela (a rua) deveria ser fechada ao movimento de carros porque os frequentadores e ambulantes já se apoderaram dela.”

É esse público andarilho que os empreendedores culturais pretendem fisgar. “Muitas vezes o meu teatro está vazio e a rua, lotada de jovens tomando cerveja na calçada”, diz Leo Medeiros, do Teatro da Rotina. “Quero trazê-los para dentro.” Compartilhar as expressões das ruas, buscar novas formas de cultura e despertar reflexões mais conscientes são objetivos comuns dos novos polos culturais. 

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Valéria França, Especial para O Estado

04 Novembro 2017 | 03h00

O Teatro da Rotina (TR) não tem placa nem aparência de um local típico de apresentações ou shows. Fica no número 912 da Rua Augusta, no primeiro andar de um prédio pequeno de escritório, como tantos outros que existem na região. A única indicação é um adesivo em formato de seta, com o nome do teatro, grudado no porteiro eletrônico do edifício. 

Uma vez na porta, aperta-se o botão do conjunto 12 e alguém desce as escadas para abrir - em geral, um dos sete atores voluntários que se revezam nas produção, limpeza, administração, bar e programação da casa. 

A semente desse projeto surgiu em 2012, quando o ator Leo Medeiros resolveu montar um grupo de discussão e estudo na casa dele, nos Jardins, em São Paulo, chamado Uma Leitura Apenas. “Identifiquei uma grande insatisfação de atores que se formam e não possuem mercado para trabalhar - isso causa uma depressão imensa. E estava há dez anos sem dirigir. Queria voltar a fazer isso”, diz ele, que no início juntou oito pessoas para ler e discutir textos.

As pautas das discussões começaram com “palavras de ordem”, segundo Medeiros, como afetividade, coletividade, economia criativa e sustentabilidade. Questões que geralmente permeiam muito mais a área dos negócios do que das artes. “Precisamos voltar ao tempo em que o espectador saía do teatro refletindo e que o conteúdo apresentado tinha o poder de mudar valores e conceitos.”

O grupo cresceu e foi para uma sala de trabalho alugada no mesmo prédio onde funciona hoje. Com o tempo, eles viram que tinham uma peça pronta. Não encontravam espaço para exibi-la, e então Medeiros transformou a sala em teatro.

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*Felipe Melo Pissardo, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 10h09

A Rua Augusta se origina a partir de 1891, com o loteamento e urbanização das chácaras sobre as quais viria se sobrepor. Na década de 1940, são instaladas linhas de bonde, escolas e clubes de influência estrangeira. Surgem ainda palacetes, casas geminadas e habitações coletivas, compondo desde muito cedo um mix de usos e perfis de moradores, embora houvesse uma diferenciação espacial, com áreas majoritariamente da elite e outras, da classe operária.

Até os anos 1970, ocorre a fase de “metropolização”, quando a rua se torna espaço do lazer juvenil, da paquera motorizada e da boemia. Inicia-se o processo de verticalização, com a construção de edifícios residenciais e comerciais. Lojas de luxo se multiplicam ao longo da rua, que vira sinônimo de um estilo de vida e símbolo de prosperidade. A música jovem ganha força nos anos 1960, fazendo surgir ali clubes noturnos e bares com essa temática. A Augusta se torna musa de artistas como Juca Chaves, que compõe “Nós, os gatos, ainda em 1959, e Ronnie Cord, autor de “Rua Augusta” (1963).

Em 1970, a parte centro da rua começa a se desvalorizar e, em 1980, a parte Jardins. Surgem rachas na rua, camelôs e inferninhos, que a tornam um ponto de prostituição. Mas ela se transforma em 1990 a partir da imposição da Avenida Paulista como eixo econômico. Os baixos preços dos imóveis da Augusta impulsionam a construção de hotéis e restaurantes voltados a executivos e funcionários da Paulista. Bares e teatros que resistiam desde os anos 1960 foram reconfigurados e mantiveram ativo o público apreciador de arte, atraindo também interessados em um movimento artístico mais alternativo. Esse grupo impulsiona a transformação da Augusta em endereço da cultura alternativa a partir de 2005, quando ocorre uma apropriação massiva de jovens de classe média. Há ainda o investimento de empresários da noite, com o aparato do grande mercado que fortalece ainda mais o movimento.

Nesta década, esse público se ampliou a partir do surgimento de novos empreendimentos e pontos culturais, fazendo da rua uma centralidade com ampla capacidade de aglutinar uma diversidade social, sexual, etária, estilística, ideológica e comportamental. Paralelamente, a região sofre o impacto da exclusão de classes sociais mais pobres, sem condições de arcar com os preços, agora valorizados, dos imóveis locais.

*Felipe Melo Pissardo é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP e colaborador do Esquina, plataforma sobre cidades.

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