Baixa umidade do ar pode triplicar risco de morte

Problemas aumentam quando secura chega a níveis próximos de 10%; desde segunda-feira, índices em SP ficaram abaixo de 30%

Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2011 | 20h44

O ar seco de São Paulo, fator que se agrava no inverno, representa risco real à saúde. Análise feita a partir da onda de secura registrada em agosto de 2010 mostra que a baixa umidade do ar pode triplicar o risco de morte.

 

É a primeira vez que se consegue dimensionar a exata influência da baixa umidade relativa do ar na saúde. "A umidade relativa apareceu como principal variável nos problemas de saúde, superando os efeitos dos poluentes e da temperatura", afirma a meteorologista Micheline Coelho, que realiza estudo na Faculdade de Medicina da USP. "Contudo, fica claro que os poluentes continuam impactando nos casos também. E, dependendo dos níveis, o risco aumenta muito."

 

O risco de morte, de acordo com a pesquisa, aumentou de 0,26% para 0,64% quando a umidade relativa variou de 100% para níveis próximos de 10%.

 

No estudo foram analisadas 1.252 autópsias feitas em agosto de 2010 pelo Serviço de Verificação de Óbitos da Capital. Desse total, 17,7% das mortes - 212 pessoas - foram provocadas por doenças respiratórias, o escopo analisado. A maioria das vítimas é de idosos, segundo a autora.

Estiagem. O estudo foi realizado com dados de agosto de 2010 por se tratar de um evento extremo vivido na cidade. Foi o mês mais seco desde 1961, quando as medições de umidade do ar começaram. A cidade enfrentou uma sequência de 11 dias com umidade abaixo de 20% e com picos de 12% - a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera seguro níveis acima de 60%. De acordo com Micheline, os efeitos na saúde não são medidos apenas por um dia ou outro de baixa umidade, mas pela sequência de dias nessas condições, o que provoca um desgaste na saúde dos moradores.

 

"O problema é que esses eventos extremos tendem a se repetir com as mudanças climáticas. E não estamos preparados."

 

Planos. Os limites definidos pela OMS são usados pela Defesa Civil para decretar os estados de atenção, alerta e emergência. Mas, assim como ocorre com a poluição, as medidas se restringem a orientações, como evitar aglomerações ou exercícios ao ar livre. Há um Plano de Contingência para Situações de Baixa Umidade, elaborado em 2008, mas ele é vago.

 

A Prefeitura fala em restrição de atividades físicas e de aulas, mas não cita endurecimento do rodízio de veículos, por exemplo. No ano passado, mesmo com um ar desértico, não houve nenhuma medida mais contundente - como ocorre em outros países (veja acima).

 

Também não há ainda uma estrutura em São Paulo em que as secretarias estadual e municipal de Saúde oferecem às autoridades em tempo real o aumento de internações. Essa avaliação só é conhecida, muitas vezes, por balanços feitos dias mais tarde.

 

A umidade relativa do ar é a relação entre a capacidade que o ar tem de reter vapor de água e a quantidade que ele, de fato, absorve. No organismo, essa condição favorece doenças respiratórias, agrava alergias e provoca irritação na boca, garganta, nariz e olhos. Quem mais sofre com os efeitos são crianças e idosos.

 

Neste ano, já em maio houve registros de baixa umidade em vários dias, com níveis abaixo de 60%. Desde segunda-feira, os níveis baixaram a menos de 30%, colocando a cidade em estado de atenção, em cinco dias. Com 20 dias sem chuva, a camada de poluição tem se intensificado. Os índices pioraram e a qualidade do ar ficou inadequada em todos os dias da semana.

 

"Períodos de estiagem mais prolongados, menos ventilação e dias com bastante insolação colaboram para o aumento de ozônio e material particulado", explica a gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb, Maria Helena Martins. Com a chegada de uma frente fria, as condições devem melhorar hoje.

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