Edson Lopes Jr.
Edson Lopes Jr.

Bairros vizinhos são opostos da segurança em SP

Índice elaborado pelo Instituto Sou da Paz mostra que Pari e Brás concentram crimes, já Mooca e Cambuci têm menos registros

Marco Antonio Carvalho, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Bairros vizinhos e realidades opostas. No centro-leste da cidade de São Paulo, quatro áreas coladas umas às outras ocupam as piores e as melhores posições em um ranking de violência. Enquanto no Pari e no Brás crimes violentos são notados com maior frequência, o Parque da Mooca e o Cambuci estão vendo os índices caírem, reforçando a discrepância com a vizinhança.

A explicação está ligada às características dos bairros. Nos dois primeiros, o comércio intenso é a marca, enquanto no Parque da Mooca e no Cambuci o perfil residencial predomina. Além disso, há diferentes estratégias de policiamento. Na Mooca, a filosofia de polícia comunitária guia o atendimento dos agentes com o público, com a sala do delegado de porta aberta para atender a população.

Os dados que comprovam essas distinções vêm do Índice de Exposição a Crimes Violentos, composto por uma média ponderada de registros de homicídios e latrocínios (IECV Vida), estupros (IECV Dignidade Sexual) e roubos, roubos de veículo e de carga (IECV Patrimônio), elaborado pelo Instituto Sou da Paz e divulgado em parceria com o Estado

O primeiro lugar desse ranking na capital – atualizado com dados do primeiro trimestre de 2018 – é do 12.º DP (Pari), seguido pelo 8.º DP (Brás). Entre os melhores, o líder é o 57.º DP (Parque da Mooca), seguido pelo 6.º DP (Cambuci). No geral, o índice da cidade teve queda de 6,9%, assim como o do Estado (-1,9%), mostrando que São Paulo tem conseguido reduzir a violência. A diminuição, porém, não está ocorrendo de modo uniforme. 

Um mapa com índices de cada distrito permite observar que na região central fica a maioria das delegacias mais seguras. Na periferia, predominam as áreas mais violentas.

No hall de entrada do DP do Pari, que serve de sala de espera para registro de ocorrências, há um quadro na parede com um mapa da área de circunscrição do distrito. Nele, adesivos de diferentes cores marcam onde ocorreram variados crimes.

Além da concentração nas imediações da Marginal do Tietê, na Avenida do Estado e na Avenida Rangel Pestana, é em uma área onde há mais adesivos: as ruas de maior comércio do Brás. Os crimes contra o patrimônio são os que mais exigem o trabalho da polícia na região.

De abril do ano passado a março deste ano, a área registrou 2.026 roubos, o equivalente a 168 por mês - alta de 1,5% em relação aos 12 meses anteriores. No vizinho 8.º DP, que divide a circunscrição das áreas de comércio, a alta também foi pequena (0,6% no mesmo período), mas o patamar de crimes é considerado elevado para a população da região: 101 por mês.

Policiais que atuam na área chamam atenção para dois fatores quando confrontados com os números: a população flutuante dos bairros, que recebem milhares de pessoas por dia em razão do comércio, e a necessidade de ações preventivas com participação não só da polícia, mas também dos empresários.

Na opinião do professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Rafael Alcadipani, fatores socioeconômicos e a estrutura do policiamento explicam a discrepância dentro da capital. “A diferença parte de acessos distintos à educação e à renda por parte da população que vive em cada área. São fatores com impacto na quantidade de crimes, sobretudo contra a vida”, diz.

O que faz da Mooca a melhor área?

No 57.º DP, considerado o mais seguro e com perfil mais residencial, o sucesso é visto como consequência da integração dos policiais com a população do bairro. “A primeira coisa que faço quando há mudança nas polícias é promover um almoço da PM com o delegado da Civil. O grande entendimento que temos hoje tem dado esse resultado maravilhoso”, celebra o presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Alto da Mooca, o administrador de empresas Walter Augusto Marques, de 79 anos.

Há 29 anos, Marques integra o Conseg do bairro e diz que antes “havia uma certa concorrência” entre as polícias. “Essa fase já passou. Hoje, com o programa Vizinhança Solidária os vizinhos olham um pelo outro e acionam a polícia em caso de comportamentos suspeitos. Isso tem funcionado”, diz.

Na delegacia, a prioridade é pelo atendimento ao cidadão que procura o local para registro de uma ocorrência. Policiais dizem que a boa receptividade faz com que constantemente os cidadãos voltem com informações importantes para investigações policiais sobre o que viram ou ouviram. 

Gerente de Gestão do Conhecimento do Instituto Sou da Paz, Stephanie Morin chama a atenção para a necessidade de se identificar e disseminar boas práticas. “Não adianta implementar medidas, planos bem desenhados, se não disseminar para outros locais e dar continuidade no investimento. Programas são constantemente descontinuados por falta dessa visão.”

Dos 86 distritos com dados monitorados, 24 tiveram piora no índice de 2015 a 2018, sendo o maior aumento proporcional notado no 78.º DP (Jardins), o 8.º lugar na cidade. Na outra ponta, o que mais melhorou no período foi o 91.º DP (Ceagesp).

Do ano passado para cá, a piora ocorreu em 28 áreas, tendo o maior aumento proporcional ocorrrido no 80.º DP (Vila Joaniza). Nesse período, o DP que mais melhorou foi, novamente, o 91.º DP. 

Estupros continuam crescendo

Se, por um lado, a redução dos homicídios tem tido influência na queda do índice, não só na capital, mas no Estado inteiro, por outro, o crime que tem impedido que essa diminuição ocorra de forma mais consistente é o estupro. O Estado acumula sequenciais altas no registro desse tipo de crime e, na capital, 55 dos 86 DPs registaram aumento do ano passado para cá.

“É preciso investimento para entender esse fenômeno. Há uma dificuldade adicional em saber quanto dessa alta se deve a um aumento real do crime e quanto se deve a uma maior disposição das vítimas em registrar as ocorrências. Tem que ser analisado se existem mais motivos para a alta nos registros, como criação de delegacias da mulher”, diz Stephanie. 

Estado está mais seguro, mas há exceções violentas

O primeiro trimestre de 2018 mostrou a continuidade na queda dos indicadores de criminalidade no Estado de São Paulo. O IECV caiu 1,9% na comparação do primeiro trimestre de 2017 com o mesmo período de 2018, fortalecendo as quedas sequenciais desde 2014. A tendência se manteve na observação do IECV letal, com dados de homicídios e latrocínios, que caiu 10,7% e no IECV Patrimônio, que soma registros de roubos e roubos de veículos, com redução de 15,9%. Na contramão, o IECV dignidade sexual aumentou 14,5%. 

O Sou da Paz constatou que São José do Rio Pardo, com população estimada de 54 mil habitantes em 2017, não teve nenhuma ocorrência de homicídio, latrocínio ou roubo de carga no 1º trimestre de 2018. Já Lorena, com 88 mil habitantes, teve a maior taxa de homicídio doloso no acumulado de março de 2017 a março de 2018 entre todos os municípios com mais de 50 mil habitantes do estado (35,1 homicídios por 100 mil habitantes). No que diz respeito aos estupros, a taxa observada em Lorena foi 58% maior que em São José do Rio Pardo, e, em relação aos roubos – excluídos os roubos de veículos -, 281% maior, acrescentou o instituto.

“Apesar da queda de homicídios continuada no Estado como um todo, algumas regiões permanecem em situação preocupante, com necessidade de medidas voltadas ao controle desse tipo de crime”, diz Stephanie. Ela lembra que esse controle passa pela retirada de armas de fogo de circulação, além de maior investimento no esclarecimento de crimes contra a vida e diagnósticos robustos para compreender quem está morrendo e quem está matando. 

Ações específicas são desenvolvidas pela polícia, diz secretaria

A Secretaria da Segurança Pública disse que as polícias desenvolvem ações específicas de combate e prevenção da criminalidade, a partir de uma análise aprofundada “que leva em consideração tanto volume quanto tipo de população circulante, crimes, quantidade de ocorrências e modus operandi dos criminosos”. Segundo a pasta, essas ações levaram a redução de indicadores como homicídio, roubos em geral e roubos de veículo no primeiro semestre tanto no 12.º DP como no 8.º DP. 

A secretaria ressaltou que a comparação entre distritos policiais realizado pelo estudo não considera as características de cada área. “Circulação comercial/empresarial de uma região que eleva a população flutuante da área, como o 12º DP, o que, consequentemente, eleva os índices criminais a patamares superiores se comparados a bairros tradicionalmente residenciais, como a região do 57º DP (Parque da Mooca), por exemplo”, destacou.

Sobre Lorena, a pasta disse que as ações realizadas por ambas as polícias possibilitaram que os indicadores criminais seguissem a tendência de queda de todo Estado. “Apenas as ocorrências de homicídios e de roubo de veículos apresentaram ligeiro aumento. As operações no município são ininterruptas e, no período, 374 pessoas foram presas por ambas as polícias e 35 armas de fogo foram apreendidas. Além disso, está em andamento um projeto de reforma da Delegacia do Município.”

Sobre o aumento dos estupros, a pasta destacou que as polícias Civil e Militar prenderam 795 pessoas por esse tipo de crime no Estado até maio deste ano. “Os policiais de São Paulo contam, desde 2015, com o Banco de Perfis Genéticos, que até maio tinha 2.539 perfis inseridos no sistema. A ferramenta permitiu que os números de coincidências em crimes sexuais duplicassem de 2017 para este ano, e possibilitou que um único criminoso fosse correlacionado em seis crimes de estupro cuja autoria era desconhecida."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.