Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bairros de SP querem atrair novos olhares na Jornada do Patrimônio

Passeios valorizam a arquitetura e o patrimônio imaterial do Jaçanã, de Santana e de São Miguel Paulista

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2017 | 03h00

Das obras de Lina Bo Bardi aos antigos casarões dos Campos Elísios: falar sobre patrimônio de São Paulo, em geral, é levantar referências concentradas em regiões abastadas e centrais da cidade. Dentro da Jornada do Patrimônio, que ocorre neste fim de semana, três projetos de iniciativa popular propõem o oposto: atrair atenções para outros eixos da capital: “Além da capela, patrimônio e memória em São Miguel Paulista”, na zona leste, “Jaçanã, novos olhares” e “Descobrindo Santana”, ambos na norte.

“Por que não Santana? Ou por que não Itaquera, Guaianases, Tremembé? Cada rua, cada bairro de São Paulo tem sua história, seus marcos, sua memória afetiva”, defende o presidente da PreservaSP, Jorge Eduardo Rubies, de 46 anos. Com a associação, ele ajudou a organizar passeios nas duas edições anteriores da Jornada, ambos no Bexiga, hoje um dos destinos mais populares dos tours em São Paulo, motivo pelo qual sugeriu se voltar para um bairro ainda pouco visível nesse tipo de circuito. “Reclamam que São Paulo é uma cidade feia, mas isso depende do olhar para a cidade, de começar a apreciar, ver que São Paulo tem coisas muito interessantes, que tem valor”, pontua.

“Santana tem muita coisa interessante, muitos prédios antigos, casarões de boa arquitetura”, afirma Rubies. Para o passeio, ele ajudou a selecionar quatro “marcos importantes da paisagem do bairro”: a sede do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo (CPOR), datada de 1917 e localizada no terreno em que havia o Solar dos Andradas (antiga residência de José Bonifácio); a centenária Igreja de Sant’Ana; a Escola Estadual Padre Antonio Vieira (tombada pelo Estado) e a Biblioteca Narbal Fontes, localizada na antiga Chácara Baruel.

“Esses são os pontos principais, mas, no caminho, a gente sempre percebe detalhes diferentes, uma porta mais elaborada, uma janela, que podem passar despercebidas até para os moradores”, comenta. Além disso, também serão comentados aspectos “imateriais” do patrimônio, como as relações entre os vizinhos e as crianças que ainda brincam na rua. “Essa vida em comunidade vem se perdendo em São Paulo, as pessoas estão ficando isoladas dentro de prédios, perdem a relação com o bairro”, pontua.

Também na zona norte, o “Jaçanã, outros olhares” é focado principalmente em valorizar o bairro diante da própria população. “Pensamos na atividade como uma forma de inserir os moradores em um circuito cultural. São pessoas que, grosso modo, acabam não tendo muito acesso a experiências culturais dentro do próprio bairro.”

O passeio sai do Museu do Jaçanã e segue por duas praças do bairro, além de visitar o Hospital São Luiz Gonzaga (antigo leprosário) e o Hospital Dom Pedro II (de 1885), de autoria do escritório de Francisco de Paula Ramos de Azevedo e pelo qual os participantes serão guiados também por uma visita interna.

Morador do Jaçanã, o historiador Gustavo Ferreira, de 41 anos, explica que o passeio vai levar “outros olhares” para a região “além da música e do trem”, referindo-se à canção “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa. A ideia é expandir o que o próprio Museu do Jaçanã, fundado por moradores em 1983, se dispõe: “a preservar a memória, as tradições e as vivências do bairro”, o que inclui, por exemplo, reunir objetos antigos em seu acervo, embora também tenha relíquias do sambista paulistano, como um chapéu e um bandolim.

Segundo ele, tratam-se de questões “menos icônicas”, mas também importantes de serem valorizadas e preservadas. “A gente precisa entender que uma casa vista como comum, que não foi feita por um arquiteto famoso, também é patrimônio, que nada nasce patrimônio, que ela foi assim considerada, constituída, por alguém”, diz ele, que afirma encontrar pequenos tesouros sempre que anda pela região. “Uma casa comum pode mostrar um espírito de uma época”, defende, ao se referir a uma valorização que vai além de casarões, prédios e palacetes.

Além da capela. Yasmin Darviche viveu 24 dos 25 anos na zona leste de São Paulo. Durante os cinco anos em que cursou Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo (FAU-USP), se deparou com o estranhamento de colegas quando falava de São Miguel Paulista, bairro em que nasceu e que pesquisou em seu trabalho de conclusão de curso.

“No começo da FAU, absorvi um pouco desse discurso, desse preconceito com a periferia como um lugar diferente. Eu fazia viagens de quase duas horas para estudar, era desgastante”, lembra. Segundo ela, ter decidido estudar o distrito foi um marco em valorizar o bairro. “São Miguel é um lugar que se basta, tem tudo o que a gente precisa de serviços, de escolas, nunca precisei ir até o centro para fazer coisas.”

Inicialmente, seus estudos focaram na antiga fábrica da Nitro Química, tombada pelo município em 2011, no qual havia um clube que costumava frequentar com o pai e com colegas de escola. “Não tinha a intenção de fazer um percurso pelo bairro, mas acabei me engajando na busca do patrimônio que fosse além do reconhecido, da Nitro e da Capela (de São Miguel Arcanjo, construída em 1622 e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Iphan).

Além de base bibliográfica, Yasmin se baseou em depoimentos de antigos moradores e trabalhadores da fábrica. “Queria discutir além da presença daquele patrimônio tombado no bairro, que está fechado, circundado por grades, que eu só fui conhecer por dentro aos 20 anos”, relata ao se referir novamente à capela. Embora seja a primeira referência apontada por moradores quando se fala em patrimônio, a capela é, para muitos, quase uma desconhecida.

O produtor visual Willian de Sá Marques, de 29 anos, só foi conhecer no ano passado durante o evento de um coletivo cultural. “A grade afasta as pessoas, faz com que se sintam constrangidas de ir.” Já a artesã Sônia Alves, de 54 anos, 50 deles vividos no bairro, respondeu à mesma pergunta com um: “Menina, mas você acredita que não? E olha que eu trabalhei ali do lado, que coisa, né? Mas eu vou uma hora dessas.”

Para Yasmin, o verdadeiro patrimônio do bairro, além da capela, que tem sua importância, está também nos costumes e nas memórias dos moradores. “A periferia tem outros tipos de patrimônios, tem patrimônios sociais, um modo de vida diferente, as pessoas se relacionam de outras formas com o espaço”.

Dentro disso, ela aponta, por exemplo, o apito soado na fábrica da Nitro Química todos os dias, até no ano-novo e o salão de festas da fábrica, hoje em ruínas - ambos muito citados pela população durante sua pesquisa. “Todo patrimônio tem uma dimensão material e imaterial, vai muito além de manter uma matéria viva, bonitinha, intacta.”

A partir da experiência, montou o roteiro, que é inédito. Assim como o PreservaSP, Yasmin já participou da Jornada, mas, no ano passado, voltou-se ao bairro do Brás. Com saída da Praça Padre Monteiro Mafra, popularmente conhecida como praça do forró, o tour passará por um antigo cinema do bairro (hoje transformado em igreja), por ruas icônicas da região, como a Rua Arlindo Colasso, e seguirá até o muro da Nitro Química, onde há grafites com a história da região.

SERVIÇO

“Jaçanã, outros olhares”

Data: 19/08

Horário: 9 horas

Ponto de encontro: Museu do Jaçanã (Av. Benjamim Pereira, 1.021 - Jaçanã)

Participação gratuita

 

“Descobrindo Santana”

Data: 19/08

Horário: 11 horas

Ponto de encontro: saída da estação Santana (Av. Cruzeiro do Sul, 3.173 - Santana)

Participação gratuita

“Além da Capela, patrimônio e memória em São Miguel Paulista”

Data: 19/08

Horário: 14 horas

Ponto de encontro: Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra - São Miguel Paulista

Participação gratuita

Mais conteúdo sobre:
Santana [São Paulo] Jaçanã [RN]

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