Bairros da zona norte têm toque de recolher

Mesmo com policiamento, lojas fecham; com medo, famílias não levaram filhos à escola

Laura Maia, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2013 | 02h10

A terça-feira, 29, foi de tensão na zona norte de São Paulo. Desde o meio-dia, lojistas das Avenidas Edu Chaves e Roland Garros afirmavam estar apreensivos com a possibilidade de que se repetissem os momentos de pânico da noite de anteontem, quando a Rodovia Fernão Dias foi fechada e lojas, saqueadas, após o enterro do jovem Douglas Martins Rodrigues, baleado por um PM. "Passaram aqui na rua avisando para a gente fechar tudo que hoje o comércio será atacado", disse um comerciante que preferiu não se identificar.

Linhas de ônibus sofreram desvios e aos poucos as portas de quase todos os estabelecimentos da região foram fechadas. O proprietário da loja Adri Modas gastou R$ 1,5 mil para colocar uma grade de ferro na frente. "Fiz isso para evitar saques. Limparam lojas ontem. Não posso correr esse risco", afirmou Anderson de Barros.

Quem optou por não fechar estava em alerta. "Estamos funcionando com a porta pela metade. Acho que é boato, mas estamos em alerta", disse um comerciante. Uma moradora disse que há boatos de que os ataques podem durar até domingo. "A gente não sabe se vai acontecer, mas hoje deram uma espécie de toque de recolher."

Durante a tarde, o policiamento era ostensivo. A todo momento passavam viaturas da PM e pessoas eram revistadas. "Fui liberado mais cedo do trabalho. O cenário parece de guerra e deve ficar pior", disse o analista logístico Wellington Aquino, de 28 anos. À noite, além da PM, a Força Tática e a Rota também estavam na região. Um grupo de moradores disse que as ações de segunda e o toque de recolher de ontem tinham relação com o crime organizado.

Muitas famílias não levaram seus filhos às escolas no período da manhã. "Disseram para a gente que não ia contar falta. Preferimos voltar", disse um aluno do 6.º ano.A General Júlio Marcondes Salgado, por exemplo, dispensou os alunos.

O único incidente na região, porém, só ocorreu às 22h, quando a Força Tática deteve um homem e dois adolescentes que tentavam incendiar um ônibus na Vila Medeiros. Eles foram levados para o 73.ºDP.

Pai. Os violentos protestos no domingo e na segunda-feira começaram após a morte de Douglas Martins Rodrigues, de 17 anos, baleado por um PM. Segundo o coronel da reserva Walter Criscibene, que já foi comandante da Tropa de Choque e tem um posto de gasolina no Parque Edu Chaves, houve falta de planejamento. "Eu mesmo liguei para o Centro de Operações da PM para avisar que estavam planejando uma manifestação forte", disse. Segundo o comandante-geral da PM, coronel Benedito Roberto Meira, a informação de Criscibene não chegou à inteligência da polícia.

O motorista José Rodrigues, pai de Douglas, disse ser contra as manifestações. "Não estão homenageando a memória de Douglas. Isso é baderna", disse. "O que a gente precisa é de orações." O PM acusado de matar o adolescente, Luciano Pinheiro Bispo, está no Presídio Romão Gomes. Ele alega que o disparo foi acidental. / COLABORARAM CAIO DO VALLE, BARBARA FERREIRA SANTOS e LUCIANO BOTTINI FILHO

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