Ayrton Senna perde usuários para Dutra

Em dez anos, movimento na rodovia estadual despencou 36%

03 Abril 2009 | 00h03

SÃO PAULO - Três estradas perderam movimento nos dez anos entre as verificações da pesquisa “Origem e Destino”: Rodovia Ayrton Senna (queda de 36%), Via Anchieta (8%) e Castelo Branco (4%).

 

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O fenômeno de transferência de tráfego é mais visível entre a Ayrton Senna e a Via Dutra. Enquanto a primeira, apesar de ser uma rodovia moderna, perdeu 36% do movimento entre 1997 e 2007 (a maior queda mostrada pela OD), a segunda, que é paralela, ganhou 119%. No período, a Dutra foi concedida à iniciativa privada e foi modernizada em segurança e qualidade das pistas. Com mais acessos e passando por mais cidades do que a Ayrton Senna, absorveu mais movimento.

 

Em relação ao “nível de atratividade” de uma estrada, o especialista em logística e transporte Paulo Resende faz um alerta. “Como há limite de melhoria, pode-se chegar a um ponto em que não há mais condições de se manter a rodovia com nível de serviço elevado e fluidez de tráfego. Aí a qualidade pode cair, com o consequente aumento dos congestionamentos”, analisa.

 

“Há alguns anos, pelas manhãs, pegávamos trânsito lento na altura do Jardim Peri Peri (km 14 da Raposo)”, diz Jorge Romão, que mora em São Roque e trabalha na capital. Hoje, narra ele, o congestionamento já espichou no sentido interior: as filas de carros chegam a até antes do Rodoanel, no km 21.

 

Romão e amigos de São Roque criaram uma associação para arrecadar recursos e fretar um ônibus que liga o município a São Paulo, numa linha diária. A iniciativa já funciona há três anos e agrega 40 pessoas, que não aguentavam mais vir de carro. De 5h40, quando o ônibus sai de São Roque, às 7h30, quando chega ao centro da capital para entregar os últimos passageiros, os amigos relaxam e batem papo. “Mudei para São Roque em busca de qualidade de vida para minha família”, diz Romão, que morava no centro da capital.

 

ÁREA DE FUGA

 

A Granja Viana é próxima da valorizada zona sudoeste de São Paulo (bairros do Butantã e Morumbi), mas, na rodovia, não há mais limites visíveis entre cidades ou bairros. Segundo Hélio Alterman, diretor de uma consultoria imobiliária que atua na área, o preço mais baixo dos terrenos nas cidades vizinhas atraiu grande número de empreendedores imobiliários, responsáveis pelo lançamento de mais de 9 mil unidades residenciais, de médio e alto padrões, nos últimos 20 anos. “A maioria dessas pessoas trabalha na capital e a saída é uma só: a Raposo.”

 

Curiosamente, a rodovia “paralela” à Raposo Tavares, a Castelo Branco, foi uma das três estradas que perderam movimento, com queda de 48 mil veículos/dia (1997) para 46 mil (2007), uma redução de 4%. Estudos de consultorias viárias, realizados na região, mostram que parte dos motoristas adotou a Raposo como alternativa para escapar dos congestionamentos na Castelo - e que, por sua vez, também continuam altos.

 

Segundo Paulo Resende, “muitas pessoas preferem até pagar pedágios para escapar de congestionamento”. “Mas elas já enfrentam trânsito parado de manhã e à tarde, como numa grande avenida.”

 

CARONA

 

Duas amigas de universidade, mas que vivem em cidades diferentes, sofrem o mesmo drama: pegar, todos os dias, cada uma a sua rodovia supercongestionada para chegar a São Paulo logo de manhã cedo. Paloma de Freitas Martins, de 23 anos, vem de Itapecerica da Serra e enfrenta a Régis Bittencourt, onde a OD detectou um crescimento de 83% no volume diário de tráfego, entre 1997 e 2007. Mariana Catacini Bon, de 21, vem de Caucaia do Alto e pega a não menos travada Raposo Tavares, onde o trânsito aumentou 33%.

 

Para economizar um pouco no combustível, e no stress do trânsito, elas se encontram diariamente no Morumbi, zona sul, às 7 horas, antes de seguir para a faculdade, na Liberdade, região central, aonde só chegam depois das 8 horas. “A partir do ponto de encontro, a cada semana vamos com o carro de uma para a aula”, diz Paloma.

 

A análise que ambas fazem do trânsito diário nas estradas coincide com os resultados da pesquisa. “No ano passado, saía de casa às 6h30 e conseguia chegar à faculdade às 8 horas. Agora, chegamos por volta de 9h”, diz Mariana.

 

Na Raposo Tavares, por onde Mariana passa todos os dias, a grande expansão imobiliária experimentada nos últimos 20 anos transformou a via em uma típica “rodovia-avenida” urbana. D.G.

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