Avoíce, avoidade

Pode ser que eu mais uma vez esteja mal informado, mas o fato é que não encontro na língua portuguesa uma palavra para designar a condição de avô. Para o pai e a mãe, existem paternidade e maternidade; para o avô e a avó, nada. Ou estou enganado? Cartas à redação.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2012 | 03h04

Você por certo já notou quão vasta e abrangente é a minha ignorância, espraiada pelos mais diversos ramos do saber. Ignorância não especializada, sim - por que haveria eu, sempre equânime, de privilegiar esse ou aquele campo do conhecimento, em detrimento dos demais? Já pensava assim nos tempos da faculdade (peço que não espalhe, mas me formei em Direito, embora hoje, se os encontrar por aí, não saiba distinguir um Código Civil de um Código Penal). Manuel Bandeira disse ao Otto Lara Resende que cada um de nós precisa escolher as próprias ignorâncias. Digamos que eu, para evitar discriminações, escolhi todas.

Tenho aqui, é claro, uns tantos recursos que me permitem caminhar, ainda que às apalpadelas, pelas sendas de tamanhas trevas. No terreno da ignorância lexicográfica, escalei em minha defesa um luzidio dream team: Houaiss, Aurélio, Michaelis, Antenor Nascentes, Caldas Aulete e Laudelino Freire. Graças a eles, ainda não fui obrigado a admitir, como certos oradores, que não tenho palavras. Como Jânio, as tenho, e as uso, o que me permite ser, não digo brilhante, mas eventualmente lustroso.

Neste momento, porém, nenhum dos grandes vocacionados do vocábulo vem em meu socorro. O Houaiss afirmava que o português, como outras línguas de cultura, compreende cerca de 400 mil palavras. E nenhuma delas, descubro agora, corresponde à condição do avô ou da avó. O mesmo Houaiss dizia também que um brasileiro comum (eu, certamente) atravessa a vida com apenas 3 mil palavras. Machado de Assis, garantia ele, não precisou de mais do que 8 mil para erguer sua catedral literária. (Esse "catedral", convém creditar, é do Houaiss, de cujos lábios finos e refinados vi sair também, e amiúde, o adjetivo "catedralesco".). Pois bem, até aceito que as minhas e as vossas 3 mil palavras não incluam algo como "avoíce" ou "avoidade" - mas, e entre as demais 397 mil da nossa tão culta língua?

Não me conformo. E sinto inveja dos usuários do espanhol, que para referir-se à condição dos abuelos e abuelas teriam à disposição não uma, mas duas palavras: abuelazgo e abuelidad. Nenhuma delas, é verdade, dicionarizada, que eu saiba. Talvez para não assanhar rivalidades não exclusivamente futebolísticas, argentinos das minhas relações disseram desconhecer abuelazgo e abuelidad. Minha amiga Ana Maria, porém, que é espanhola, já ouviu quem empregasse a primeira.

Levei minha perplexidade a outra amiga, sábia senhora que, sendo também discreta, talvez não gostasse de ver seu nome engastado nesta prosa chinfrim. "Você me colocou frente a um problema que eu jamais encarara nestes trinta e tantos anos de 'avoíce'...", escreveu-me ela, apanhando uma das alternativas de neologismo que eu lhe apresentara. "E se apelássemos para línguas estrangeiras?" - propôs. "Fugindo do inglês, já tão banalizado", ela sugeriu que nos aventurássemos, por exemplo, pelo italiano, idioma no qual nonna e nonno nos permitiram criar para o português uma simpática "nonice". O mesmo me propôs também, aliás, outro sábio, o Sérgio Augusto: "Ao menos para a praça de São Paulo, você pode apelar pro italiano e lançar 'nonismo' ou 'nonidade'."

No francês, prosseguiu a minha amiga, grand-père nos daria "grand-perdade". Mas o que fazer no feminino, se grand-mère nos conduziria a "grand-merdade"? "Ih! Foi mal!" - admitiu a minha amiga, a quem involuntariamente acabei levando uma aflição vocabular adicional. "Meu problema", explicou, "pode se tornar infinitamente mais sério, pois no ano passado casei duas netas: 'bisavoíce'?" Divertida, desconfia que "bisavoada" lhe seria mais adequado. Ela não vê motivo, em todo caso, para que nos desesperemos, e busca me tranquilizar: "Temos os 366 dias deste ano bissexto para achar uma resposta para tão grave questão..."

Sei não, minha amiga. Um ano parece tempo demais ante as urgências amorosas de um senhor para quem, faz pouco mais de dois meses, a pequena Gloria veio descortinar os encantos, para ele inéditos, disso que precisamos batizar de avoíce, avoidade, alguma coisa assim, urgentemente.

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