Avó avisou professora sobre bala em estojo

Munição foi encontrada um mês antes de Miguel, de 9 anos, ser morto na escola

Josmar Jozino e Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

A avó de um aluno da Escola Adventista de Embu das Artes, em Embu, na Grande São Paulo, afirmou ontem ter informado o colégio de que seu neto tinha ganho uma bala calibre 12 de outro aluno. O aviso, segundo ela, foi dado cerca de um mês antes da morte de Miguel Cestari Ricci dos Santos, de 9 anos, baleado em uma sala de aula na quarta-feira. Ela diz não ter recebido nenhuma resposta da instituição.

"Escrevi um comunicado na agenda dele, que agora está com a Roberta (mãe de Miguel). Mas nunca me chamaram. A professora agradeceu a informação e disse que iria averiguar. Eu perguntei para meu neto sobre isso há poucos dias, mas ele disse que nada mudou", afirmou ontem Célia Burin, de 57 anos. "Se a escola tivesse comunicado sobre essa bala, talvez os pais ficariam mais atentos e uma arma não teria entrado na escola."

Segundo ela, na ocasião, seu neto não contou o nome do colega que havia colocado a bala em seu estojo. "No Dia dos Pais, estávamos almoçando e ele mostrou a bala. Eu também não sabia o que era. O meu genro foi quem descobriu que era uma munição. Pesquisamos na internet e descobrimos que era uma arma utilizada para caça", contou. O menino, diz a avó, estudava em outro período, mas conhecia Miguel.

O garoto contou à polícia que um amigo pediu para abrir o estojo e encontrou a munição. O fato aconteceu no dia 16 de agosto. Ao chegar em casa, ele avisou os avós, Célia e Nivaldo Burin, de 59. Segundo o garoto, a professora, ao ler o bilhete, comentou que a situação descrita era impossível, mas abriu o estojo e viu a bala. "Ela mandou jogar no lixo e eu fiz isso", disse o menino. Os avós e o neto moram no mesmo condomínio da família de Miguel, na Granja Viana, em Cotia.

Um dia antes de ser morto, Miguel chegou em casa depois da aula e disse à mãe que tinha um segredo para revelar: afirmou que um amigo iria lhe dar de presente uma bala e um revólver.

A Polícia Civil tem convicção de que um menino de 9 anos atirou acidentalmente em Miguel. A criança não foi ao enterro do colega e foi vista por uma menina saindo da classe logo após o disparo. Ela ainda afirmou à polícia ter visto o garoto guardando a arma na mochila. Antes disso, outros alunos viram quatro colegas parando no bebedouro para tomar água. Dois voltaram em direção à saída da escola e os dois entraram nas classe: eram Miguel e o menino suspeito.

Os pais do garoto foram ouvidos, mas negam a participação do filho no caso e afirmam que nunca tiveram armas. Na ficha escolar do garoto não há advertências sobre incidentes passados. No entanto, a polícia não tem provas e a arma não foi encontrada. Um mandado de busca e apreensão não é descartado.

A Escola Adventista de Embu das Artes informou ontem, em nota, a intenção de dar declarações à imprensa somente quando houver "informações relevantes" sobre a morte de Miguel. A escola rebateu críticas da família de que estaria tentando abafar o caso. "Reiteramos que estamos facilitando ao máximo a elucidação do fato", disse.

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