Aviso à mulherada

Dona Alzira me conta que está muito preocupada - e não é para menos: há um tarado à solta no bairro.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Os jornais ainda não noticiaram, nem a polícia está informada, mas dona Alzira não tem dúvida. Sabe, como ninguém, farejar desgraça ou malfeito nas imediações, e até em bairros distantes. A família não esconde que ela é dotada de sensibilidade fora do comum para esse tipo de ocorrência. Paranormal, quase. Ou paranormal, sem quase. Se está dizendo que tem tarado, deve ter mesmo. E até em causa própria dona Alzira tem razão para estar em alerta. Já se aproxima dos 70 anos de idade, mas, como diz um genro irreverente, não é de se jogar fora. Aguenta bem uma meia sola, crava o camarada, grosseirão porém certeiro nas avaliações. De todo modo, com tarado não se deve facilitar. Ainda mais esse, que para subjugar as vítimas usa raio laser. Sim, raio laser. Vermelho! Alta sofisticação a serviço dos baixos instintos.

Seria maldade dizer que dona Alzira, ao revelar seus temores, denota conhecimento de causa. Jamais aconteceu com ela. Até o momento, pelo menos. Conhece, mas de experiência alheia. Nada de insinuações maldosas, portanto. Agora: não estou extrapolando ao lembrar que dona Alzira, se nunca foi assediada por macho mal intencionado, andou perto disso. Falo, claro, do seu marido. Não que Valter seja tarado. Não chega a tanto. Mas eta sujeitinho de baixa extração. E mulherengo. E trambiqueiro. Inclusive já esteve preso, rolo de dinheiro. Muito azar da dona Alzira, que parecia fadada a acabar em outros braços que não os curtinhos, roliços e peludos do Valter.

Questão de berço, até. Veja só: ela nasceu em família tradicional; gente do nosso meio, entende? E recebeu educação esmerada, dentro dos mais sólidos princípios cristãos. Não fez faculdade, que em seu tempo de moça isso não se usava - mas, ao contrário de tantas aí com diploma e tudo, aprendeu francês, piano e bordado. O francês acabou enferrujando, culpa do Valter, que não lhe proporcionou viagem a Paris. O piano também não foi adiante. Dona Alzira herdou dos pais um desses antigões, de armário, como se diz, mas num momento de crise (a prisão do Valter) foi preciso vender. Já o bordado ela não abandonou. Hoje, quando cheguei à sua casa, dona Alzira estava justamente bordando varicor. Duas almofadas para o quarto da filha caçula. Aquela, minha Nossa, que tanta preocupação lhe causou.

É, aquela. Você se lembra: abusada pelo namorado, engravidou aos 15 anos, teve de casar, já separou. Quando a barriga se tornou evidente, Dona Alzira fez romaria pelas casas da família para explicar o acontecido. Num lance de escada, detalhou, e à força, a menina não queria, bem que gritou mas ninguém veio acudir. Pois é, o vexame de dar esse tipo de explicação - e ainda ter que passar pelo dissabor de ouvir a menina contradizê-la aos berros, na frente da parentada, não foi na escada não, e eu queria sim, tava muito a fim! Essa juventude de hoje, suspira dona Alzira, pondo de lado o varicor e se levantando para me servir o pudim que fez para não desperdiçar - seria pecado, tanta gente passando fome! - uns restos de pão. Não só aproveitou o pão velho como, criativa que é, teve a ideia de incrementar o pudim com frutas cristalizadas, coroando-o com cereja da melhor. Danada! Custou uma nota, admite, mas ficou muito gostoso.

Foi entre duas garfadas que dona Alzira me pôs a par das investidas do tarado no bairro. Realmente preocupante. Mas não é preocupação que a paralise, isto é que não! Pois ela não tem boas ideias apenas quando se trata de incrementar pudim de pão. Danada mesmo: já providenciou um esquema para se safar de assédio. Qual? Ela vem para a ponta do sofá e sussurra o segredo: eucatex. Ahnn? É, meu filho, escudo de eucatex - não sabia que corta raio laser? Parece que protege até ladrão de dinheiro público. Eu não sabia, dona Alzira. Mas como é de interesse geral, a senhora me desculpe, vou abrir para mais gente e avisar à mulherada que eucatex faz raio laser de tarado murchar.

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