Aves da era dos dinossauros atraem pesquisadores ao oeste paulista

- Fósseis de pequenas aves que conviveram com os dinossauros, há mais de 70 milhões de anos, no interior de São Paulo, estão atraindo o interesse de pesquisadores internacionais.

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2018 | 03h00

SOROCABA - Fósseis de pequenas aves que conviveram com os dinossauros, há mais de 70 milhões de anos, no interior de São Paulo, atraem o interesse de pesquisadores internacionais. Uma equipe do Museu de História Natural de Los Angeles (EUA) encerrou nesta terça-feira, 12, um ciclo de visitas à região de Presidente Prudente para estudar os fósseis ainda encravados nas rochas em que foram localizados. Os ossinhos de asas e crânios das aves foram encontrados juntos com dentes de titanossauros e crocodilianos que viveram no oeste paulista no Cretáceo.

+ O parque paulista dos dinossauros

De acordo com o paleontólogo William Nava, diretor do Museu de Paleontologia de Marília, que acompanhou o grupo pela região, o paleontólogo Luis Chiappe veio ao Brasil com a preparadora de fósseis Maureen Walsh e a ilustradora científica e fotógrafa Stephanie Abramowicz para documentar os vertebrados fósseis achados no local. Ao grupo se juntou o paleontólogo argentino Augustin Martinelli, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, todos interessados em analisar os exemplares de um grupo extinto de Enantiornithes (aves voadoras) que habitou a região onde hoje é o oeste paulista.

Nava conta que os fósseis provêm de um único sítio paleontológico escavado por ele desde os fins de 2004. “Trata-se de um sítio riquíssimo em vertebrados fósseis que, além dos esqueletos das aves, apresenta dentes de crocodilianos, dinossauros carnívoros de espécies diferentes, dinossauros herbívoros, restos de tartarugas, anfíbios e um lagarto. Este réptil foi descrito em 2011 nos anais da Academia Brasileira de Ciências, por mim e pelo Martinelli, como Brasiliguana prudentis.”

De acordo com o paleontólogo, a preparação dos fósseis ainda incrustados em blocos de arenito torna-os mais expostos na superfície para que se possa ter uma ideia da distribuição e associação entre esses elementos. Esses dados, mais as informações anatômicas, serão encaminhados ao laboratório do Museu de Los Angeles, permitindo estudos comparativos com fósseis semelhantes encontrados na China, Mongólia e Argentina.

A documentação com fotografias e ilustrações, produzida por Stephanie, será utilizada nas comparações e análises para o reconhecimento de possíveis novas espécies. “Temos de três a quatro espécies novas praticamente reconhecidas", disse Nava. Essa concentração de fósseis de aves que conviveram com dinossauros no oeste paulista é a mais abundante e expressiva encontrada na chamada Bacia Bauru, conjunto de rochas sedimentares que abrange São Paulo, partes de Minas e Mato Grosso do Sul e o sul de Goiás. 

De acordo com Chiappe, que pesquisou os sítios da China e da Mongólia, o sítio brasileiro é mais significativo pela quantidade de fósseis de aves da era dos dinossauros e pelo alto grau de preservação, podendo ser visualizados em 3D. Ele já esteve na região duas vezes em 2017, acompanhado de Martinelli. Desta vez, pediu a contribuição das colegas americanas para o registro documental dos achados. “Os estudos desses fósseis serão importantes para o entendimento da evolução das aves primitivas e sua consequente extinção, junto com os dinossauros”, disse.

Circuito

Navas atua com outros pesquisadores visando à criação de um circuito paleontológico no oeste paulista, uma espécie de roteiro de pesquisas e turismo sobre a época dos dinossauros. “Embora todo o oeste seja um grande cemitério de dinossauros e outros répteis do Cretáceo, soterrados sob camadas de solo, plantações e cidades, isso ainda é pouco conhecido.” Atualmente, segundo ele, apenas as cidades de Marília, Monte Alto e Uchôa possuem museus de paleontologia.

No entanto, achados importantes aconteceram em Flórida Paulista, Lucélia, Adamantina, Pacaembu e muitas outras cidades. Recentemente se revelou que o mamífero mais antigo do Brasil, também contemporâneo dos dinossauros, viveu na pequena General Salgado – o possível roedor, batizado de Brasilestes stardusti, foi identificado a partir de um dente pré-milar de 3,5 mm. “São cidades onde moradores, às vezes, tropeçam em fósseis de dinossauros. E dinossauros atraem o público, principalmente crianças, então esses locais vêm ganhando cada vez mais projeção.”

Conforme Navas, em Marília, ele já criou um modelo de roteiro paleontológico para atender escolas. “Como nosso museu está fechado para reformas, quando uma escola nos procura para agendar visitas, levo os interessados até a Serra das Avencas, um paredão de arenito onde já encontrei fragmentos ósseos de dinossauros. As pessoas ficam maravilhadas com aquilo”, conta.

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