TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Avenida Paulista lidera em roubos e furtos de celulares

Levantamento com base em site foi feito por seguradora entre maio de 2014 e abril de 2015; ao todo, 2.560 casos foram registrados

Mônica Reolom, O Estado de S. Paulo

15 Junho 2015 | 03h00

A Avenida Paulista, na região central de São Paulo, é muito procurada por turistas, executivos, estudantes - e ladrões. Levantamento feito por uma seguradora, entre maio de 2014 e abril de 2015, mostra que a rua que é “símbolo” da cidade também tem mais roubos e furtos de celulares.

A pesquisa foi feita pela BemMaisSeguro.com e tem por base o site Onde Fui Roubado, em que os usuários marcam em um mapa o local onde foram assaltados ou furtados, o dia, o horário e descrevem os objetos subtraídos. Durante esse período, houve 2.560 registros, o que permitiu ranquear, além das ruas mais visadas pelos assaltantes, os bairros com maior incidência desses crimes.

Jéssica Ferreira, de 24 anos, teve celulares roubados quatro vezes em menos de seis meses, entre o fim do ano passado e o início deste. Dois dos casos ocorreram na região central, que está no topo das áreas com maior número de registros.

“A primeira vez foi na frente do Cine Marrocos (Rua Conselheiro Crispiniano), e nem senti, quando vi já estava sem o celular. Outra vez foi um furto dentro de um ônibus na Vila Mariana, próximo do Metrô Paraíso. Na terceira, fui assaltada quando estava com um amigo andando na direção da Estação Sumaré (Linha 2-Verde do Metrô), em uma área bem residencial”, afirma Jéssica. 

Na última vez, já neste ano, alguém furtou seu aparelho enquanto caminhava na Praça da República. O celular tinha apenas um mês. “Juro que não sou besta. A galera sabe furtar muito bem, dá raiva”, diz Jéssica.

Especialistas atribuem a liderança da região central na quantidade de roubos às características da área. “São ruas que têm maior movimento de pedestres nas calçadas e pessoas com maior poder aquisitivo, que têm celulares mais caros”, afirma José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva e ex-secretário da Segurança Pública. 

Segundo o consultor em segurança e vice-presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (ABSEG) Hugo Tisaka, o criminoso utiliza o fator surpresa para ter sucesso. “Pessoas ao telefone estão desatentas. A vítima acha que foi roubada aleatoriamente, que poderia ter sido com qualquer um, mas não é assim. Como todo predador, o ladrão escolhe a vítima mais fácil - a que tem o melhor bem e vai oferecer menor resistência.”

Prestígio. Marcello Ursini, presidente da BemMaisSeguro.com, atribui o interesse de ladrões ao prestígio que o aparelho ganhou nos últimos anos. “Hoje o celular é o bem de maior valor que você carrega. Há cinco anos, talvez fosse o relógio, o dinheiro da carteira, a correntinha de ouro. Hoje o smartphone de última geração custa R$ 4 mil”, explica.

A assistente comercial Daiane Costa de Azevedo, de 27 anos, estava caminhando na área do Vale do Anhangabaú e foi tirar o celular do bolsa quando um menino de bicicleta arrancou o aparelho da sua mão.

“Não lembro se foi para trocar a música que estava ouvindo ou para checar alguma coisa. Foi um momento de descuido em que ele passou e pegou o telefone. Na hora, ainda peguei a camisa dele e acabei machucando o dedo do pé quando ele acelerou com a bicicleta”, afirma a assistente comercial. “Estava voltando do dentista e não era nem 15 horas, a rua estava movimentada”, diz. 

A assistente comercial havia comprado o celular fazia dez dias. “Paguei R$ 1,3 mil à vista, fiquei desesperada.” Ela não registrou boletim de ocorrência porque achou que não adiantaria. Depois disso, mudou os hábitos. “Tento não atender o celular em qualquer lugar, não fico mais andando com ele na orelha e, se for para ouvir música, não o tiro da bolsa.”

Para não ter de abrir mão de manusear o telefone quando e como quisesse, a fotógrafa Graziella Widman, de 39 anos, fez um seguro para o Iphone 6 depois que seu irmão e amigos foram assaltados. “Sou um alvo muito fácil, trabalho bastante tempo na rua e à noite, e preciso mexer no aparelho. Guardo tudo nele, é a minha vida”, relata. 

Fácil desova. A pesquisa aponta que o prejuízo médio com a perda do aparelho é de R$ 1.157, próximo ao que Daiane perdeu. A facilidade em recolocar o aparelho no mercado é outro atrativo para os ladrões.

“O mundo do crime organizado já tem um esquema, em um mercado paralelo, para desovar celular. É um dinheiro fácil e rápido de conseguir”, afirma Marcello Ursini, da BemMaisSeguro.com. 

O consultor Hugo Tisaka pede atenção aos consumidores na hora da compra. “Quem compra celular usado deve saber sua procedência, desconfiar de grandes ofertas e de aparelhos vendidos sem carregador, sem manual, sem caixa. Até porque receptação dessa mercadoria também é crime”, afirma.

O coronel José Vicente da Silva Filho diz que o policiamento precisa ser efetivo, mas com ajuda dos cidadãos. “O criminoso age com base na facilidade do alvo e o policiamento não dá conta porque esse tipo de crime é muito rápido. E não é só a polícia no Brasil que está preocupada - a polícia de Nova York colocou no seu site recomendações de uso do celular na rua, para as pessoas terem cuidado”, explica Silva Filho.

Segundo as estatísticas periódicas divulgadas pela Secretaria da Segurança Pública (SSP), 46,5% dos roubos na cidade envolvem celulares. Mas a pasta não tem dados discriminados por bairros e logradouros, o que estimulou a BemMaisSeguro.com a fazer o levantamento. Além disso, a SSP usa o número de boletins de ocorrência registrados, enquanto o site Onde Fui Roubado inclui denúncias de pessoas que não fizeram o registro formal.

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