Aurélio Miguel será investigado na Câmara

1ª apuração em 14 anos teve aval da gestão Haddad, após ameaça contra secretário

DIEGO ZANCHETTA, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2013 | 02h01

Com aval da gestão Fernando Haddad (PT), a Câmara Municipal vai investigar o vereador Aurélio Miguel (PR) e decidir, em 30 dias, se indicará a cassação do mandato do judoca. É a primeira vez em 14 anos, desde o escândalo da Máfia dos Fiscais, que a Corregedoria da Casa se manifesta a favor do julgamento de um parlamentar por suspeita de corrupção. A Justiça já pediu o afastamento temporário de Miguel.

Acusado de receber propina para omitir irregularidades em cinco shoppings e com os bens bloqueados desde sexta-feira, o campeão olímpico de 1988 foi completamente isolado após dizer em plenário anteontem que não foi o autor do relatório da CPI do IPTU, feito em 2009 pelo então vereador e atual secretário de Governo, Antonio Donato (PT), homem-forte da gestão petista. Na avaliação da cúpula do governo, o judoca fez ilação sem fundamento para tentar assustar o prefeito e seus secretários.

O efeito, porém, foi reverso. No fim da manhã de ontem, o secretário de Relações Governamentais, João Antonio (PT), ligou para o corregedor do Legislativo, vereador Rubens Calvo (PMDB), e pediu que convocasse os partidos a indicar o quanto antes seus representantes na comissão que vai votar a abertura da investigação. Antonio também ofereceu "assessoria técnica" para a comissão que será formada para abrir inquérito administrativo. À tarde, o corregedor classificou o caso de Miguel como "gravíssimo". Procurado, Donato não quis comentar o caso.

A abertura de investigação foi motivada por requerimento apresentado pelo vereador Toninho Véspoli, único representante do PSOL da Câmara. Ele avalia como obrigação dos vereadores investigar os supostos crimes do judoca, acusado de usar a CPI do IPTU, de 2009, para achacar representantes de shoppings. Os bens do vereador estão estimados hoje em mais de R$ 25 milhões, com 25 imóveis, contra os cerca de R$ 1,4 milhão (valor corrigido) declarados na primeira eleição, em 2004.

Para o Ministério Público, Miguel tem patrimônio aparentemente compatível com sua renda quando se trata de pessoa física. Mas não consegue explicar o patrimônio de suas empresas.

Sem apoio. Além de Miguel ter perdido aliados na base governista do PT, vereadores ligados ao ex-prefeito Gilberto Kassab, incluindo a bancada de oito parlamentares do PSD, querem a investigação contra o judoca, principal opositor do governo passado. Miguel também não tem mais a proteção de seu "padrinho" político - o ex-presidente da Câmara e atual suplente de Marta Suplicy (PT) no Senado, Antonio Carlos Rodrigues (PR). A colegas, o judoca tem reclamado da falta de apoio de antigos aliados e vereadores que também participaram da CPI, como Wadih Mutran (PP) e Adilson Amadeu (PTB).

Miguel diz ser vítima de perseguição por ter feito oposição a Kassab. Segundo ele, a herança de sua família explica seu salto patrimonial em seis anos. "Ele agiu energicamente para investigar irregularidades na aprovação de empreendimentos", diz seu advogado, David Teixeira Azevedo. "E já tinha oferecido a abertura de seu sigilo fiscal e bancário no ano passado aos promotores."

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