Aulas podem mostrar relação entre teoria e vida dos alunos

Professor de Matemática usa sala como oficina e imagina obra para ensinar Geometria e Matemática Financeira

O Estado de S.Paulo

07 Junho 2015 | 02h03

Na primeira vez em que entrou em uma sala de aula, recém-formado em Matemática, Dermeval Cerqueira conta que não sabia o que fazer com o giz, o apagador e o diário. Lembrou-se do conselho de um colega experiente: "Fique tranquilo, que os alunos não sabem nada."

Esse pensamento o ajudou naquele momento. "Mas hoje não o considero verdadeiro. Os meninos têm conhecimento, sim. Eu sabia Matemática, mas não ensinar." Autor do livro O Universo da Matemática, Cerqueira hoje forma professores de Matemática, na FMU e em cursos de capacitação em todo o Brasil.

"O professor 'vomita' tudo em cima do aluno", descreve o especialista, desculpando-se pela expressão. "Não espera o aluno refletir, emitir opinião. O aluno vira mero espectador." Como fazer, então, no dia a dia massacrante de uma sala de aula, muitas vezes na periferia, à noite, com alunos pobres, cansados e desmotivados? Cerqueira diz que enfrentou tudo isso, em uma escola pública na periferia de Guarulhos. "Aprendi a trabalhar na sala como oficina." Os alunos eram levados a observar o teto, as paredes e a tirar conclusões sobre Geometria.

O professor ensinava Geometria e Matemática Financeira ao mesmo tempo, imaginando a construção de uma casa. Levava os alunos a calcular área, blocos, cimento. Depois, tinham de fazer pesquisa de preço de pisos e azulejos nos depósitos da região. O dono de uma loja de material de construção, cuja filha estudava lá, chegou a ir à escola, levar folhetos de seus produtos e preços. "Sabendo que a caixa vem com 13 pisos, quantas caixas preciso comprar?", tinham de calcular os alunos. O professor perguntava: "Dá para trazer no Fusca?" Tinham de ir verificar o peso das caixas na loja e calcular o volume. "Caber no Fusca, cabe", concluíram os alunos. "Não sabemos se vai andar."

Muitos eram filhos de serventes e pedreiros e acionavam os pais para ajudá-los nessas tarefas. "Valorizavam a profissão dos pais, interagiam com a família e com o comércio. Tornavam-se pessoas ativas na favela. Faziam coisas práticas." Alguns já tinham cortado azulejo com seus pais. Falavam dessa experiência. Para ensinar regra de 3 e porcentagem, Cerqueira trabalhava com os salários dos pais - quanto ganhariam se tivessem um aumento de 7%, quanto era o desconto do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e assim por diante.

Ele diz que, mesmo hoje, em suas aulas de licenciatura, não entrega aos alunos as respostas prontas. "Jogo coisas erradas, para que eles percebam que estão erradas. Faço-os interagir." Só depois é que ele encaixa a teoria no que já foi trabalhado dessa forma.

"Professor tem de ser pesquisador", ensina o especialista, mestre e doutor pela PUC de São Paulo. "Buscar atividades bacanas, fomentar atividades que interessem ao aluno e o façam refletir. Dá trabalho."

Cerqueira diz que é essencial saber o nível de compreensão e acompanhamento de cada aluno. "Trago atividades para cada grupo - mediano, fraco -, tenho cartas na manga." Cabe aos "mais fracos" dizer aos "medianos" o que aprenderam, e esses aos "mais fortes". "Trabalho as diferenças. Ando muito. Uso pouco a lousa. Se quiser, o aluno vai explicar na lousa. Ele se sente valorizado. Aquela doutrina do 'fica quieto' é bobeira. Sala de aula tem de ser barulhenta para o aprendizado, não para a anarquia. Tem de ser gostoso aprender, o aluno tem de ensinar ao colega."

Sem 'gincaninha'. Em contrapartida, a aula não pode virar uma "gincaninha", adverte Maria Lucia Mexias-Simon, professora de Português no curso de licenciatura da Universidade Severino Sombra, de Vassouras, no Rio. "O professor bota o aluno para correr, um imita cachorrinho, outro coelhinho, equipe azul, equipe amarela. Quando o professor quer dar uma aula mais teórica, os alunos se rebelam, dizem que é chato."

O ensino da gramática requer raciocínio, explica Maria Lucia, autora do livro Manda Quem Pode. "Quando a gente bota uma lista de conjunções, alguns decoram para a prova, outros fazem cola, mas não resolve. Eles têm de refletir, entender: 'consecutiva' estabelece consequência, 'aditiva' soma uma ideia à outra."

"Muita escola obriga a decorar a tabela periódica e não desenvolve o raciocínio", acrescenta Claudia Costin, do Banco Mundial. "A química, como mistura de ingredientes, é belíssima. Mas tudo é transmitido como raciocínio teórico, sem experimentação. A Filosofia sempre dialogou com a Física. Introduzimos a Filosofia nas escolas, mas ela não dialoga com as outras disciplinas. A Física é vista como conjunto de fórmulas. É muito empobrecedor." / L.S.

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