Acervo Estadão
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Augusta, mosaico da diversidade

De 1891 a 2017, rua foi de símbolo da prosperidade a endereço da cultura alternativa

*Felipe Melo Pissardo, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 10h09

A Rua Augusta se origina a partir de 1891, com o loteamento e urbanização das chácaras sobre as quais viria se sobrepor. Na década de 1940, são instaladas linhas de bonde, escolas e clubes de influência estrangeira. Surgem ainda palacetes, casas geminadas e habitações coletivas, compondo desde muito cedo um mix de usos e perfis de moradores, embora houvesse uma diferenciação espacial, com áreas majoritariamente da elite e outras, da classe operária.

Até os anos 1970, ocorre a fase de “metropolização”, quando a rua se torna espaço do lazer juvenil, da paquera motorizada e da boemia. Inicia-se o processo de verticalização, com a construção de edifícios residenciais e comerciais. Lojas de luxo se multiplicam ao longo da rua, que vira sinônimo de um estilo de vida e símbolo de prosperidade. A música jovem ganha força nos anos 1960, fazendo surgir ali clubes noturnos e bares com essa temática. A Augusta se torna musa de artistas como Juca Chaves, que compõe “Nós, os gatos, ainda em 1959, e Ronnie Cord, autor de “Rua Augusta” (1963).

Em 1970, a parte centro da rua começa a se desvalorizar e, em 1980, a parte Jardins. Surgem rachas na rua, camelôs e inferninhos, que a tornam um ponto de prostituição. Mas ela se transforma em 1990 a partir da imposição da Avenida Paulista como eixo econômico. Os baixos preços dos imóveis da Augusta impulsionam a construção de hotéis e restaurantes voltados a executivos e funcionários da Paulista. Bares e teatros que resistiam desde os anos 1960 foram reconfigurados e mantiveram ativo o público apreciador de arte, atraindo também interessados em um movimento artístico mais alternativo. Esse grupo impulsiona a transformação da Augusta em endereço da cultura alternativa a partir de 2005, quando ocorre uma apropriação massiva de jovens de classe média. Há ainda o investimento de empresários da noite, com o aparato do grande mercado que fortalece ainda mais o movimento.

Nesta década, esse público se ampliou a partir do surgimento de novos empreendimentos e pontos culturais, fazendo da rua uma centralidade com ampla capacidade de aglutinar uma diversidade social, sexual, etária, estilística, ideológica e comportamental. Paralelamente, a região sofre o impacto da exclusão de classes sociais mais pobres, sem condições de arcar com os preços, agora valorizados, dos imóveis locais.

*Felipe Melo Pissardo é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP e colaborador do Esquina, plataforma sobre cidades.

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