Protestos contra tarifa em São Paulo têm confusão no fim

A Polícia Militar aceitou o trajeto proposto pelos manifestantes e os acompanhou de perto; início do protesto ocorreu com tranquilidade

O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2016 | 22h16

Atualizado às 23h55

SÃO PAULO - Após faltar à reunião com representantes de Estado, Prefeitura e Ministério Público e recuar ao divulgar o trajeto das passeatas, o Movimento Passe Livre (MPL) fez o terceiro ato contra o reajuste da tarifa de ônibus, trem e metrô, na noite de ontem, em São Paulo. Debaixo de chuva, as duas manifestações - no centro e na zona oeste - foram marcadas pela tensão e encerradas com depredação na Estação Consolação e confusão na Estação Butantã do Metrô. Oito pessoas foram detidas na Avenida Paulista.

A Polícia Militar considerou ter havido aviso prévio - uma exigência do Estado e da Prefeitura - e aceitou os trajetos informados às 15 horas pelo MPL.

O Estado apurou que a cúpula da Polícia Civil, ao monitorar os atos, considerou que os manifestantes tentaram evitar protagonizar episódios de violência para afastar a imagem de vândalos. Ao término do primeiro protesto, na sexta-feira, black blocs deixaram um rastro de destruição pelo centro. Na terça-feira, a PM exigiu a divulgação do trajeto - sem acordo, a manifestação foi dispersada com bombas.

A concentração das passeatas teve início às 17 horas no Largo da Batata, em Pinheiros, e no Teatro Municipal, que foi precedido de um pré-ato realizado na Praça da Sé. De acordo com o MPL, 6 mil pessoas foram ao centro e 5 mil, à zona oeste. A PM estimou o público em 2 mil, no total, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública.

Os manifestantes começaram as passeatas por volta das 18h30. No centro, a caminhada foi pacífica. Policiais foram à frente, seguidos de mascarados. Após passar pela Prefeitura, no Viaduto do Chá, o grupo parou na porta da Secretaria da Segurança Pública, na Rua Líbero Badaró. Eles sentaram no asfalto por cinco minutos e soltaram vaias. O secretário Alexandre de Moraes apareceu na janela do prédio.

A passeata seguiu pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio e o ato foi encerrado no vão-livre do Masp, na Avenida Paulista. Em seguida começou o tumulto, quando parte dos manifestantes tentou entrar na Estação Consolação. Eles pressionaram as grades e quebraram vidraças. Funcionários do Metrô, então, abriram a plataforma. 

Passageiros do metrô ficaram assustados. “Estávamos saindo da estação e não conseguimos por causa da confusão. É um pouco assustador. As manifestações são válidas, mas é difícil apoiar a violência desse jeito”, disse a professora Isabel Humenhuk, de 26 anos.

O grupo queria fazer um catracaço - embarcar no metrô sem pagar. Duas bombas caseiras foram lançadas. Uma bilheteria e máquina automática de venda de alimentos foram depredadas. A PM usou uma bomba na área externa da estação para dispersar os manifestantes. A confusão terminou com a chegada de reforço. “O Choque tá aí”, gritavam black blocs na correria. Após a revista, a polícia prendeu oito pessoas.

Zona oeste. Na Estação Faria Lima, no Largo da Batata, todos os passageiros eram revistados por motivos de segurança. “Achei uma frescura. Nem todos os passageiros vão participar do protesto. Apesar de eu achar um roubo cobrar R$ 3,80, não vou nas manifestações porque acho muito violento”, disse Olinda Sheron Gomes, de 20 anos, que mora no Grajaú, no extremo sul da capital, e teve a bolsa aberta por uma PM. 

Os manifestantes, sob forte escolta policial, partiram na direção da Avenida Faria Lima. Passaram pela Avenida Pedroso de Morais, chegaram à Praça Panamericana, cruzaram a Ponte Cidade Universitária, continuaram pela Rua Alvarenga e pela Avenida Vital Brasil. Representantes do MPL seguiram a passeata em negociação com a tenente-coronel Dulcinéia Lopes de Oliveira, que comandou a operação. Não houve discussão. 

O ato foi encerrado na Estação Butantã, onde houve confusão. Black blocs tentaram fazer um catracaço. A PM lançou três sinalizadores para dispersá-los. No tumulto, os funcionários da concessionária ViaQuatro liberaram as catracas para 50 manifestantes. 

Parte do grupo, porém, saiu em fuga na direção da Avenida Francisco Morato. Duas pessoas foram detidas e liberadas em seguida. “Eu só corri para onde a PM indicou e me pegaram”, disse a estudante de História Luana Alves, de 21 anos, moradora do Grajaú. Para estudar em Guarulhos, ela usa trem, metrô e ônibus. “Sinceramente, vejo todo dia o que o povo passa no transporte público. Não vale R$ 3,80.”

Desrespeito. Na manhã de ontem, Moraes disse que o MPL agiu de forma “antidemocrática” por ter “se negado ao diálogo”. “É um verdadeiro desrespeito o que esse movimento está fazendo com a população”, disse, referindo-se à falta de divulgação do percurso com antecedência. “Não estamos dispostos a ficar tendo conversinha de gabinete com quem manda a polícia bater, e bater violentamente”, disse Vitor dos Santos, representante do MPL.

O procurador-geral Márcio Elias Rosa propôs novo encontro, às 10 horas, na segunda-feira. Para terça-feira, está marcado novo ato do MPL, às 17 horas, no cruzamento da Avenida Rebouças com a Avenida Faria Lima, na zona oeste. / ALEXANDRE HISAYASU, BRUNO RIBEIRO, FABIO LEITE, FELIPE RESK, MÔNICA REOLOM e RAFAEL ITALIANI

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