Ativistas criam ciclofaixas irregulares

Com giz e tinta, eles sinalizam vias exclusivas para bicicletas pela cidade; segundo a CET, prática presta desserviço e confunde motoristas

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2010 | 00h00

Quem costuma passar pela Ponte Cidade Universitária, no Butantã, zona oeste, já deve ter percebido uma nova faixa de pedestres, meio torta, que apareceu há menos de um mês em uma alça da Marginal do Pinheiros. Outra parecida surgiu não muito longe dali, na Rua dos Pinheiros, também na zona oeste. E ambas têm muito a ver com as várias bicicletas pintadas há cerca de duas semanas na Avenida Dr. Hugo Beolchi, na zona sul.

Todos esses sinais foram feitos por cicloativistas no último mês, durante os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo. O raciocínio é simples: com quase todos os paulistanos na frente da televisão, é bem mais fácil levar giz, baldes de tinta e pincéis para o asfalto e fazer a pintura nas ruas desertas antes que o tráfego volte ao normal.

Por ter sido a primeira, a faixa da Ponte Cidade Universitária, pintada durante o jogo contra a Coreia do Norte, na tarde de 15 de junho, é uma das mais simbólicas. O local escolhido pelos ativistas é movimentado, e, apesar de haver calçada e um grande fluxo de pedestres dos dois lados, não há sinal de pare ou semáforo e é difícil atravessar a alça sem correr o risco de ser atingido pelos carros. Por isso, também foi pintado no asfalto um aviso, a poucos metros da faixa: "Devagar, vidas".

Agora, como a seleção só jogará de novo na Copa em 2014, a pintura de sinais no asfalto deve voltar a ser feita durante a madrugada, horário de ruas vazias, no qual os ativistas costumam agir desde 2007, quando o movimento começou.

Neste ano, um grupo de ciclistas colocou na internet um modelo de bicicleta para ser baixado, impresso e utilizado como fôrma por quem se interessar. Foi criado até um nome-fantasia - que também pode ser baixado no mesmo site - para denominar o movimento: "CETB", ou Companhia de Engenharia de Tráfego de Bicicleta, uma paródia do órgão de trânsito oficial da Prefeitura - Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Um dos ativistas, que preferiu não se identificar, explicou que o objetivo não é protestar para que a administração municipal coloque uma ciclofaixa exclusiva nos locais pintados. Segundo ele, os símbolos servem para lembrar ao motorista que a legislação de trânsito nacional prevê que todas as faixas podem ser usadas também por bicicletas. "O símbolo reforça a ideia de que o ciclista pode, sim, passar por ali, como está escrito no código. A obrigação do motorista é compartilhar a via, mas muita gente ignora essa regra", afirma.

Conflito. A maior parte dos sinais é pintada em locais onde os ciclistas consideram que há um conflito entre carros e bicicletas. E como a pintura não é centralizada por um só grupo, várias ruas da cidade já ganharam bicicletinhas nos últimos anos.

A Avenida Paulista, por exemplo, é um dos locais mais recorrentes das ações - mas a maior parte dos símbolos já se apagou com o tempo. A Rua Groenlândia, nos Jardins, a Avenida Sumaré, na zona oeste, e até um trecho da Marginal do Pinheiros - antes de a ciclovia ser construída - também já foram alvos recentes dos cicloativistas.

Juristas ouvidos pela reportagem frisam que a prática é ilegal. "Sinais de trânsito são normas administrativas, que só podem ser estabelecidos por autoridade pública. Eu apoio politicamente a ideia. Mas, do ponto de vista jurídico, é ilegal", diz o professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano.

Desserviço. A CET concorda com a ilegalidade das pinturas. "Esse tipo de sinalização presta um desserviço aos ciclistas, uma vez que os induz a correrem riscos ao circular em uma faixa que não foi planejada para receber bicicletas nem oferece a segurança necessária", afirmou o órgão, em nota. Há duas semanas, a CET apagou 33 bicicletinhas que haviam sido pintadas pelos ativistas na Ponte Cidade Universitária e na Rua Alvarenga.

PARA LEMBRAR

CET delimitou travessia após protesto

No início de maio, uma pichação de protesto chamou a atenção da CET e conseguiu com que uma faixa de pedestres fosse pintada na Avenida Miguel Estéfano, zona sul. A via havia sido recapeada, mas estava sem faixa de pedestre. Por isso, alguém pintou uma e escreveu "Cadê?".Duas semanas depois, a CET refez a faixa de pedestres original.

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