Jadson Marques/AE
Jadson Marques/AE

Atirador era calado, tímido e vivia na internet

Segundo colegas, de seis meses para cá Wellington mudou de atitude, pediu demissão do trabalho e passou a andar de preto

Sabrina Valle, Felipe Werneck e Luciana Nunes Leal, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2011 | 00h00

Um rapaz calado, tímido, introspectivo, que não se envolvia em confusão nem desrespeitava ordens. Na escola, na vizinhança e no trabalho, a descrição de Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, é a mesma, assim como a surpresa com a violência do ataque às crianças da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, onde o atirador cursou o ensino fundamental.

Atordoadas com a tragédia, pessoas que conviveram com Wellington se perguntavam ontem como ele teria conseguido as duas armas e tanta munição, já que nunca tiveram notícia de envolvimento do amigo, colega e vizinho com drogas ou criminosos. Algumas relataram, no entanto, uma mudança de comportamento nos últimos tempos.

"De seis meses para cá, ele passou a andar de preto, veio com essa história de religião, deixou a barba crescer. Acho que pediu demissão, mas nunca vi fazer nada errado. Parecia um cara legal, vivia no mundo dele. Nunca vi bebendo nem fumando, não mexia com ninguém", contou o vizinho Fábio dos Santos, de 27 anos, ajudante de motorista.

Wellington completou em 2006 o ensino médio na Escola Estadual Madre Teresa de Calcutá e, em fevereiro de 2008, conseguiu um emprego de auxiliar de serviços gerais em uma fábrica de embutidos em Jacarepaguá. Em agosto de 2010, deixou o emprego de pouco mais de R$ 400 mensais de salário. Saiu da casa na Rua Jequitinhonha, também em Realengo, onde viveu com os pais adotivos, já falecidos, e foi morar em Sepetiba.

O gerente de Wellington na fábrica, que preferiu não se identificar, comentou que, nos últimos meses de trabalho, o rapaz passou a demonstrar desinteresse e baixo rendimento. A demissão chegou a ser recomendada, mas ele pediu dispensa antes. "Hoje a gente já faz outra leitura, devia estar muito perturbado para fazer o que fez", disse.

Na adolescência, Wellington foi adepto dos Testemunhas de Jeová, como a mãe adotiva, Dicéa Menezes de Oliveira, que morreu em 2010. Vizinho e companheiro da mesma igreja durante alguns anos, o estilista Guilherme Boniole Abel, de 28 anos, que também deixou os Testemunhas de Jeová, descreveu Wellington como "uma pessoa calma, tranquila, mas com sinais de tristeza".

Os hábitos de Wellington nos últimos meses são um mistério para amigos e vizinhos. Guilherme disse ter ouvido que Wellington passou a frequentar "uma religião secreta". Uma das irmãs do atirador, Rosilane, de 49 anos, disse em entrevista à rádio BandNews que o jovem andava "estranho" e "falava desse negócio de muçulmano". Rosilane contou que, no período das eleições, no ano passado, o irmão adotivo apareceu na antiga casa "e estava com a barba grande".

A informação de que o atirador seguia a religião islâmica provocou reação da União Nacional das Entidades Islâmicas do Brasil. Seu presidente, Jamel El Bacha, divulgou nota informando que ele não era "muçulmano e não tem qualquer vínculo". Ele condenou veementemente o ato "insano e inexplicável" do rapaz.

Vizinhos também fizeram relatos semelhantes sobre a obsessão pela internet. "Ele só vivia no computador, não tinha amigos", disse a irmã.

Vingança. Na casa de alvenaria mal cuidada e cheia de pichações antigas onde Wellington vivia, policiais encontraram janelas e objetos quebrados. Para o psiquiatra Miguel Chalub, especializado em psiquiatria criminal, o fato de ter atacado crianças e escolhido a escola onde estudou pode estar ligado a problemas do passado. "É provável que a raiz da ação tenha sido a infância."

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