Atirador diz que agiu em legítima defesa. Decisão judicial determinava interdição, mas com cautela

Buffolo afirmou em depoimento que atirou porque imaginava que tentavam invadir sua casa; ele também negou que seja esquizofrênico No despacho, juíza Maria Carolina de Mattos escreveu que era preciso 'evitar o agravamento da situação' de Buffolo

DENIZE GUEDES, WILLIAM CARDOSO , O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h02

O despacho judicial que determinou a interdição de Fernando Behmer César de Gouveia Buffolo diz que ele apresenta "quadro psicótico diagnosticado como esquizofrenia em tratamento psiquiátrico há longo tempo", além de "tendências suicidas".

Mas a decisão do dia 10 da juíza Maria Carolina de Mattos, da 3.ª Vara de Família e Sucessões da Capital, pedia cautela no cumprimento da medida. "Ressalto, por fim, que a medida ora determinada deve ser cumprida com as devidas cautelas, a fim de evitar o agravamento da situação do interditando", escreveu.

Segundo o documento, o quadro clínico de Buffolo se agravou nos últimos tempos. "Com tendência suicida e necessidade de avaliação psiquiátrica de urgência, com possível internação", disse a juíza.

A magistrada afirmou ainda que, após a avaliação, havendo necessidade, ficaria autorizada a "internação involuntária do requerido, até regular alta médica". No documento, foi aventada até a possibilidade de o administrador ser retirado à força da casa na Aclimação, onde vivia com a psicóloga Silvia Guerra. "A hipótese, realmente, é de se autorizar a retirada compulsória do requerido do local em que se encontra, para a realização de avaliação no nosocômio", apontou. Maria Carolina ainda deixou claro que estaria autorizado até uso de força policial, caso fosse necessária a internação.

Perigo. Em documento do dia 26 anexado ao inquérito, o psiquiatra Antonio Juviniano de Aragão, que acompanhou o oficial de justiça na última quinta-feira à casa de Buffolo, atesta que o administrador apresenta "um diagnóstico prévio de quadro psicótico esquizofreniforme" e "atualmente suas características psíquicas e comportamentais têm como possível diagnóstico esquizofrenia".

Apesar de recomendar avaliação psiquiátrica de urgência com possível internação, fez uma ressalva: "Deve ser evitada uma citação de ação judicial (brecha para negar insanidade), pois tal citação pode agravar sintomas psicóticos ou provocar tentativa de suicídio".

Apesar do desfecho trágico, ontem José Cociolito, advogado da mãe de Buffolo, Leni Behmer Pinto César, que pediu a interdição, afirmou que foram tomadas todas as cautelas necessárias para o cumprimento do mandado de interdição.

O delegado José Gonzaga Pereira da Silva Marques, titular do 6.º DP, deve encerrar o inquérito na segunda-feira e pedir a prisão preventiva de Buffolo. Ele será indiciado por tentativa de homicídio contra seis pessoas (ou até oito, dependendo do entendimento do Ministério Público. Laudos sobre o caso também poderão ser anexados posteriormente.

Marques afirmou também que recomendará que Buffolo seja levado a um hospital de custódia, para preservar sua integridade física e a de outros presos. / W.C.

O administrador de empresas Fernando Behmer Cesar de Gouveia Buffolo, de 33 anos, quase matou três pessoas porque pensou que sua casa havia sido invadida por "bandidos". À polícia, disse que atirou porque a ação "era irregular". "Agi em legítima defesa", afirmou, ao deixar à 0h30 de ontem o 6.º Distrito Policial, no Cambuci, com direção ao Instituto Médico-Legal (IML) e, depois, ao 31.º DP (Vila Carrão), onde fica quem tem ensino superior.

Autuado em flagrante, Buffolo apresentou sua versão sobre o caso em 1h30 de interrogatório. Diante do delegado José Gonzaga Marques, titular do 6.º DP, manteve-se calmo e cortês. Falou com clareza e raciocínio lógico. Disse que seu maior problema era o relacionamento com a mãe, a professora Leni Behmer Pinto Cesar, de 65 anos, desde a adolescência. Também tinha desavenças com a irmã, Luci.

Segundo ele, nos últimos tempos Leni vinha interferindo em seu relacionamento com a psicóloga Silvia Helen Gomes Cardim Moreira Guerra, de 44 anos, com quem vivia na casa da Rua Castro Alves havia três meses - eles se conheceram três anos atrás no Parque da Aclimação.

A situação se tornou insustentável, a ponto de ele "chegar mesmo a recusar a presença da mãe". "Primeiro ela era recebida na grade da casa, depois nem isso", disse o delegado. A decisão de pedir interdição do filho, segundo Marques, não era compartilhada pelo pai, que tinha medo de o filho cometer suicídio. Buffolo contou que recebeu "tratamento psicológico e terapêutico ainda infante", mas negou ter tomado remédios ou saber do diagnóstico de esquizofrenia.

Para ele, foi um "erro brutal" o comportamento do grupo que foi anteontem à sua casa. Eram um oficial de justiça, três enfermeiros, um psiquiatra e o advogado da família, José Cociolito. Buffolo conta que estava no quarto quando ouviu a campainha. Sua companheira, a psicóloga Silvia, foi atender a porta. O administrador ficou observando o que se passava por um olho mágico na porta de seu quarto. Percebeu um "vozerio" e viu quando os "desconhecidos" tentavam conter Silvia, segurando-a pelos braços. Pensou que eram bandidos e que "a casa havia sido tomada de assalto". Pegou então uma pistola calibre 380 na gaveta, abriu a porta e atirou. "Não tinha como depreender que se tratava de uma ação legítima", diz o depoimento. "Achou que se tratavam de marginais."

Nas nove horas que levou para se entregar, Buffolo ligou para o pai, também administrador, e pediu que lhe conseguisse um advogado. "Ele sabia que tinha feito algo errado", disse o delegado.

No depoimento, o administrador diz ainda que julgou ser irregular a atitude do policial militar que tentou entrar em sua casa para prendê-lo. E afirmou ter disparado a espingarda calibre 12 na direção do escudo balístico que protegia o PM para fazê-lo desistir de entrar.

Responsabilidade. Ontem, o delegado contou que vai relatar à Justiça as condições clínicas do acusado, a fim de que seja aberto incidente de insanidade - procedimento judicial para demonstrar que ele não era responsável por seus atos na hora do crime.

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