''Atirador de escola se vê como fracassado''

Katherine Newman, Antropóloga e especialista em tiroteios em colégios

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

Quando em 1999 dois alunos invadiram a escola americana Columbine, em Littleton, no Estado do Colorado, mataram 13 pessoas e se suicidaram, coube à antropóloga Katherine Newman tentar explicar o que aconteceu ao Congresso dos Estados Unidos. Hoje reitora da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade John Hopkins, ela foi incumbida pelos deputados de estudar o massacre. Sua pesquisa rendeu o livro Rampage: The Social Roots Of School Shootings (Violência: as raízes sociais de tiroteios em escolas), adotado pelo governo americano. A seguir, ela diz que há paralelos entre aquele caso com o do Rio.

O que a tragédia de Realengo tem de similar com os tiroteios em escolas americanas?

Esse terrível incidente do Rio tem muitos pontos de semelhança com casos que tivemos nos Estados Unidos. Primeiramente, a versão mais clássica dos tiroteios em escolas envolve pessoas que faziam parte da instituição. É um ataque que vem de dentro, por isso é tão perigoso. Não é um invasor; é uma pessoa conhecida e, assim, é muito difícil se proteger. Também não é incomum que os atiradores criem uma situação em que eles serão alvejados e mortos ou que se matem.

Por que eles fazem isso?

Porque normalmente eles já eram potenciais suicidas há algum tempo. Mas, em vez de somente se matar e ficar com o estigma de fracos, eles têm essa necessidade de chamar mais atenção e usam a violência para isso. É uma saída deliberadamente "espetacular".

No caso de Wellington, algum tempo atrás ele mudou seu comportamento e sua forma de se vestir, por exemplo.

Conforme mais coisas sobre o rapaz forem descobertas, provavelmente se constatará que ele fez várias tentativas de mudar a forma como as pessoas o enxergavam. A maioria dos atiradores de escolas se vê como fracassados socialmente. E normalmente são. Então, eles passam a falar para os colegas que consideram fazer algo dramático e violento. Infelizmente, é assim que eles começam a chamar atenção, mas eles já estão tão comprometidos com o que haviam se proposto a fazer que não conseguem sair dessa ideia.

E os colegas não fazem nada para evitar o ato violento?

Pelo contrário. Entre os adolescentes mais jovens, especialmente, os colegas ainda encorajam o ato, sem saber que o garoto pode estar falando sério. Eles sentem certo prazer ao atormentar essa pessoa e a pressionarem. Então, se o atirador desistisse, ele acumularia mais um enorme fracasso social.

Wellington era um ex-aluno. Como diferenciar o que era um problema individual dele e o que é uma questão social da escola?

É sempre uma combinação das duas coisas. Pessoas normais não atiram em crianças. Então estamos falando de alguém com uma séria perturbação mental. Por outro lado, há quase sempre um fator social nesses casos: a rejeição, a inabilidade de ser aceito por um grupo. Há ainda um elemento que chamamos de solidariedade negativa, quando um grupo social se une, especialmente os adolescentes, e intensifica a ligação entre eles por meio da rejeição e da ridicularização do outro.

Mas daí a matar pessoas...

O atirador não está querendo matar pessoas. Ele quer chamar atenção e ser respeitado. O atirador prefere ser visto como assustador, dramático, a ser visto como fraco, perdedor, que é como ele foi visto a vida toda.

O que os Estados Unidos aprenderam dos casos de tiroteios em escolas?

Nós aprendemos a ser mais observadores das pessoas ao nosso redor. Os jovens aprendem, por um curto período, que seu comportamento de rejeição com relação aos colegas pode ter consequências sérias. Isso muda o comportamento deles por um curto período, porque as próximas gerações nas escolas atingidas não têm a memória emocional do acontecido. Então, as mudanças são temporárias. As autoridades escolares aprendem a ser mais vigilantes, a prestar atenção aos sinais, a ouvir os alunos um pouco mais. O que podemos esperar é que haja uma detecção precoce dos alunos mais problemáticos.

E as medidas de segurança?

Detectores de metal ajudaram a encontrar armas, certamente. Mas o principal objetivo é manter estranhos fora da escola. E, nesses casos, os atiradores não são estranhos. Não é por aí.

Nada poderia ter sido feito?

É impossível garantir que algo assim não acontecerá nunca mais. Temos só de tentar melhorar a experiência escolar dos adolescentes, diminuindo o bullying, a rejeição. Os atiradores experimentaram uma forma extrema de isolamento, mas isso não quer dizer que milhões de crianças não passem por isso de forma mais amena. Não à toa, nós não gostaríamos de voltar à nossa adolescência.

O atirador do Rio tinha 23 anos, não era mais um adolescente.

Talvez ele fosse um rapaz imaturo, infantilizado. Quando analisamos os atiradores adolescentes, é mais fácil detectar se eles têm um problema mental ou social grave, porque eles estão envolvidos com grupos, com instituições. Conforme ficam mais velhos, o isolamento é inevitável e o diagnóstico fica mais difícil. Foi o que aconteceu com o Cho Seung-hui, na Universidade Virginia Tech, em 2007. No caso do Wellington, o isolamento deve ter tido um papel grande em sua vida. Sozinho, ele deve ter remoído muito a dolorosa experiência escolar, sem ninguém para distraí-lo.

Há influência dos episódios americanos neste caso?

Culpar a cultura americana é uma saída simples demais. Casos aconteceram nos EUA, mas o pior tiroteio em escolas de ensino médio foi na Alemanha, na cidade de Efurt, em 2002, onde 16 pessoas morreram. Qualquer lugar está sujeito a isso. E não há como saber por que só agora aconteceu no Brasil.

Também se costuma culpar filmes e games violentos.

Não é que isso seja desimportante na cabeça desses jovens, mas não é tão importante quanto as pessoas pensam. A maioria das pessoas pensa que esses vídeos estimulam os jovens a ser violentos. Mas a real influência desses vídeos na cabeça dos jovens é a forma como ali a violência representa a masculinidade, a glória do anti-herói. E, para sermos totalmente honestos, toda nossa cultura, em qualquer país ocidental, glorifica e respeita o homem violento.

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