Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Até sarcófago se esconde no antigo hotel Cambridge

Inaugurado em 1951, endereço histórico no centro fechou em 2002 e agora vai virar prédio de habitação popular. Confira o que ficou para trás

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2011 | 00h00

José Osvaldo Gonzaga é um sujeito grande e de olhos bem atentos que já se acostumou a passar o dia sozinho na penumbra. Completamente sozinho, completamente na penumbra. Há cerca de 15 dias, ele toma conta do Hotel Cambridge, no número 216 da Avenida 9 de Julho, recentemente desapropriado pela Prefeitura na região central para virar moradia popular. Só ele - na verdade, ele, o escuro, móveis deixados para trás e centenas de histórias escondidas pelos 17 andares do edifício.

"Como não tem luz aqui, às vezes tomo uns sustos. Bate a janela, até parece que é fantasma", diz Gonzaga, que já aprendeu a se movimentar pelo Cambridge sem bater em algum pedaço de madeira. Na semana passada, a Expedição Metrópole entrou com exclusividade no prédio que chegou a receber hóspedes como o cantor americano Nat King Cole. Por trás da sujeira, de pedaços de móveis destruídos, das cortinas mofadas, da umidade na parede e de um mundo de cacarecos deixados para trás, é possível reparar detalhes e vislumbres de uma época áurea do centro de São Paulo.

"Cuidado", diz uma placa no lobby, visível apenas com luz de lanterna. Ali, justamente onde o zelador permanece de guarda do início da manhã até fim de tarde, apenas alguns miúdos fachos do sol vencem as janelas lacradas com tapumes de madeira. Eu lembro de ter estado ali algumas vezes - depois do fechamento em 2002, o bar do Cambridge continuou recebendo festas como a Trash 80"s, Gambiarra e Talco Bells. O saguão era transformado em pista de dança e a recepção virava bar. Uma grade de ferro com pesados cadeados separava os frequentadores do resto do hotel. A memória das baladas, no entanto, não me poupou de tropeçar em cadeiras (acho que eram cadeiras) que se escondiam no escuro.

Nunca havia subido no Cambridge. Após 22 degraus até o primeiro andar, logo perto da escada, há um sinal de que não se trata de um prédio abandonado como outro qualquer - um sarcófago encostado na parede causa calafrio na espinha (entenda, estava escuro, aí aparece um sarcófago! Pô, um sarcófago!). Feito de plástico, ele parece ter sido deixado pelos organizadores de alguma balada, com vários rolos de papel crepom, pôsteres, caixas de cerveja, vasos sanitários quebrados, cadeiras vermelhas e um disco em vinil com a Trilha Sonora Oficial do Longa Metragem Flashdance - Em Ritmo de Embalo (aquele do clássico oitentista What a Feeling).

Mais 22 degraus para cima e o cenário começa a parecer mais a um hotel de verdade, não apenas um depósito de destroços. O piso de taco de madeira do corredor continua intacto, camas de casal e solteiro seguem com colchões e até armários de madeira permanecem abertos, como se estivessem à espera dos hóspedes. Desde o começo dos anos 2000, ninguém dorme ali. Mas não é preciso muita abstração para imaginar o vai e vem de funcionários pelos andares, o barulho dos frequentadores, o frenesi típico de um ícone da hotelaria da capital.

Transformação. Projetado pelo arquiteto Francisco Back e financiado pelo empresário Alexandre Issa Maluf, o Cambridge virou sinônimo de sofisticação assim que seus 119 apartamentos foram inaugurados, em 1951. Mas a deterioração do centro se refletiu na decadência do endereço, cujos andares ainda hoje demonstram degradação. Turistas sumiram da região, carregando suas malas para endereços nos Jardins e na Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini e levando hotéis outrora riquíssimos à falência. Uma triste história que a sujeira na fachada, as janelas quebradas e o abandono não deixam esquecer.

Depois de uma batalha jurídica de quase um ano com herdeiros do Cambridge, a Prefeitura depositou há um mês R$ 6,5 milhões pela desapropriação, encerrando de vez atividades no local. A ideia é transformar o antigo hotel em edifício residencial para famílias de baixa e média renda - quartos serão remodelados em 115 unidades habitacionais de cerca de 38 m².

Relíquias. Enquanto a Prefeitura faz planos para o futuro, o passado ainda respira solitário pelo Cambridge. Em um quarto no 10.º andar, um sofá puído e cheio de mofo está jogado em um canto. Banheiros exibem por trás de espessa camada de pó seus belos azulejos em mosaico. Televisões quebradas, bebedouros e aparelhos de fax se entulham nas entradas dos dormitórios. O maior tesouro do Cambridge, no entanto, está escondido em um quarto no quinto andar, que servia de escritório. Mais de 20 livros de capa preta grossa escondem nomes dos hóspedes do hotel, alguns de fevereiro de 1961, outros de 1962, 1963, 1974, 1975, 1976 e vários das décadas de 80 e 90.

Anotava-se tudo com caligrafia cheia de curvas e floreios: nome e sobrenome, nacionalidade, estado civil, profissão, idade, data de entrada, número do cômodo, procedência, data de saída, hora, destino e documento de identidade. Como Thomas Tyler, vindo dos "USA", casado, "funcionário aéreo" de 40 anos, que fez check-in no dia 18/08/1962 no quarto 77 e saiu ao meio dia do dia seguinte. Ou o contador Robert Assaf, de 32, que no mesmo ano dormiu duas noites no quarto 49 antes de partir para Santos. São nomes que ajudaram a fazer a história do Cambridge e seguem na memória do hotel. Um legado de histórias que será agora continuado por moradores que um dia colocarão seus nomes naqueles tão famosos apartamentos.

 

Veja também:

link Blog da Expedição Metrópole

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