Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Até piscinão é usado como cracolândia na zona norte de São Paulo

Reservatório no Jardim Peri chega a ter 20 usuários de crack por vez; vizinhos vivem com medo de assaltos

William Cardoso, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2012 | 23h26

SÃO PAULO - Em São Paulo, até mesmo um piscinão já se tornou uma minicracolândia. Na altura do número 1.100 da Avenida General Penha Brasil, no Jardim Peri, na zona norte, o reservatório do Guaraú chega a reunir 20 usuários da droga ao mesmo tempo, segundo os vizinhos. Eles consomem as pedras a qualquer hora do dia, sem repressão. Os moradores relatam um cenário de insegurança e desconforto, que já alterou a rotina do bairro.

Para impedir a entrada dos dependentes, foi colocado um tubo de concreto em um vão entre as grades. A medida não foi suficiente para evitar que os usuários de crack invadissem o terreno e serve de referencial para quem pretende chegar à droga. Com entulho e sofás velhos usados como "escada", até mesmo mulheres grávidas, segundo os vizinhos, pulam facilmente a cerca para fumar crack.

Como não há fiscalização, os usuários permanecem pelo tempo que quiserem no terreno. Há relato de dependente que já chegou a viver por uma semana no reservatório. Dentro do piscinão, o dependente químico consome a droga com relativa tranquilidade, o que tira o sossego dos vizinhos.

A preocupação de quem vive perto do local é constante. "Há casos de mulheres que saem para trabalhar no fim da madrugada e acabam assaltadas por eles nos pontos de ônibus. Também roubam as roupas dos varais, sapatos, botijões de gás e material de construção. Tudo para transformar em pedra", afirma o comerciante Vagner, de 35 anos, que trabalha na avenida há 10 e não quis revelar o sobrenome.

A dona de casa Sueli Maria, de 42 anos, não aguenta mais o barulho dos viciados onde mora. Segundo ela, o problema piora durante a madrugada. "Incomoda bastante. Eles brigam, gritam, fazem sexo. O cheiro da droga é muito forte, ninguém tem sossego", conta.

Os usuários de crack não chegam a intimidar garotos que também usam o espaço para empinar pipa, mas acabaram com o parque infantil que existia no terreno. "Não sobrou nenhum brinquedo, foi tudo desativado. Muitas crianças vinham com os pais até o parque para brincar e agora não têm opção", diz Sueli Maria.

 

Tráfico. Um dos principais responsáveis por distribuir a droga para os usuários é um adolescente de pouco mais de 1,5 metro e aproximadamente 12 anos. "O Menor", como é conhecido na vizinhança, é o "aviãozinho" que busca o crack em pontos de tráfico de drogas nas redondezas, caminha pela Avenida General Penha Brasil despreocupadamente, pula a grade que separa a calçada do piscinão e, na sequência, distribui as pedras para os demais dependentes.

O próprio garoto também acende o cachimbo e consome a droga. Faz isso várias vezes por dia e, pelo tamanho, é facilmente notado entre os demais "noias" do circuito de meio quilômetro entre o piscinão e a Praça Victorio Finzetto, outro ponto de concentração de usuários de crack durante a noite. "New Cracolândia", decreta uma pichação nos arredores da praça.

Uma das usuárias estava com roupas limpas quando se aproximou do piscinão, por volta das 19h de sexta. Olhou para os lados, pulou o tubo de concreto e se juntou a um grupo de quatro pessoas. Saiu minutos depois, tropeçando, sem rumo.

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