Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Até classe média acampa por moradia

300 manifestantes exigem 1,5 mil casas de Haddad para deixar o Viaduto do Chá

Artur Rodrigues, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h03

Famílias consideradas de classe média pelo governo brasileiro estão engrossando os movimentos sem-teto de São Paulo. Esse era o perfil de parte dos cerca de 300 manifestantes que acamparam na madrugada de ontem na frente da Prefeitura para cobrar a inclusão em projetos de moradia - é o primeiro protesto deste tipo, com acampamento, enfrentado pelo prefeito Fernando Haddad (PT).

É o caso de Heitor Porfírio dos Santos, de 30 anos. Ele trabalha como instalador de rastreadores de veículos e recebe R$ 1.300 mensais. Para a Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo federal, quem tem renda familiar per capta entre R$ 291 e R$ 1.019 é da classe média. O critério é questionado, mas a família de Santos está nessa faixa, com média de R$ 325.

Só o aluguel da casa de um quarto onde mora com a mulher e as filhas, no Jabaquara, zona sul, consome R$ 450. "É mais do que posso pagar. E aumentou R$ 50 há pouco tempo. Tenho uma filha de 3 anos e outra de 6 meses, tenho de comprar fraldas, remédios."

Santos aderiu ao Movimento de Moradia Casa 10 e tem perfil semelhante ao de vários integrantes do grupo, formado por pessoas que estão empregadas e querem fugir do aluguel. "Muitos ganham entre R$ 1.000 e R$ 1.300. Só com o aluguel, às vezes, gastam mais da metade do salário", diz Paulo Roberto Viana, de 47 anos, coordenador do movimento. Ele exige 1,5 mil habitações para integrantes do movimento e auxílio para aluguel. Caso contrário, não desmontará o acampamento.

Haddad disse ontem estar disposto a dialogar com o grupo e que vai cumprir a meta de construir 55 mil moradias no mandato. Admite, porém, que a demanda é maior. "Não posso destinar as moradias só para as entidades que fazem parte do movimento sem-teto", diz. Parte das habitações deve ir para pessoas que moram em áreas de risco.

Morador de Itaquera, na zona leste, o auxiliar de almoxarifado João Ricardo Carvalho Barbosa, de 35 anos, gastou R$ 70 em uma barraca para aderir ao movimento na esperança de sair do aluguel de R$ 420. "Isso sem contar água, luz e outras contas", afirma.

Para quem sempre viveu no conforto de casa, mesmo que alugada, a situação é precária, diz. O chão é duro, faz frio de madrugada e não há banheiro - os homens improvisam em uma tenda com ralo e as mulheres têm de pagar R$ 1 para ir a um shopping próximo.

De acordo com o coordenador da Frente de Luta por Moradia (FLM), Osmar Borges, gente com renda entre dois e três salários mínimos representa 30% do movimento. "São pessoas que gastam R$ 600 no aluguel e sobra pouco para a alimentação da família", afirma. Mas a grande maioria ainda é de pessoas com renda mais baixa.

IPTU. Urbanista e ex-secretária de Habitação de São Paulo na gestão de Luiza Erundina, Ermínia Maricato diz que o aumento dos aluguéis e a especulação imobiliária estrangulam a população e a expulsam para cada vez mais longe do centro. Verbas de programas como Minha Casa Minha Vida são absorvidas pelo mercado e acabam aumentando os preços. "Tem uma classe média baixa que tem dificuldade de ser incluída no mercado imobiliário", diz. Segundo ela, uma das ações que o poder público deveria tomar é utilizar mecanismos para a ocupação de imóveis vazios, como estabelecer prazos para o uso de prédios e IPTU progressivo.

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