Até brasileiro legalizado recebe carta para deixar Inglaterra

Empresa contratada pelo governo britânico para rastrear imigrantes ilegais usou banco de dados desatualizado

NATALY COSTA, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2013 | 02h04

Brasileiros e outros imigrantes que vivem no Reino Unido têm recebido mensagens de celular, e-mails ou cartas em nome do governo britânico mandando-os deixar o país. As mensagens tinham como alvo os estrangeiros ilegais e foram disparadas por uma empresa terceirizada, contratada pelo governo, para 174 mil pessoas entre o Natal e o réveillon. Alguns dos que as receberam, porém, estão em situação legal no país.

Há uma semana, uma executiva carioca que mora em Londres há oito anos e prefere não se identificar voltava de férias no Brasil e foi parada na imigração do aeroporto de Heathrow. Ela já teve um visto de residência negado por ter preenchido errado o formulário, mas continua com o de trabalho válido. "Eles falavam que eu menti no formulário e poderia ter meu visto de trabalho cancelado", conta.

Dias depois, recebeu uma carta: teria de sair do país em quatro dias. "Meu advogado ligou para a empresa que enviou a carta e eles apenas disseram que atualizariam meu cadastro. Mas tenho certeza de que ainda terei problemas na imigração".

Em setembro, a empresa Capita foi contratada pelo governo inglês para prestar uma série de serviços para o departamento de imigração. Parte desse trabalho consistia em entrar em contato com as pessoas que tiveram pedido de visto negado, usando a base de dados do governo.

O advogado Daniel Martins conta que desde o começo do ano atendeu mais de 30 brasileiros que receberam essa mensagem. "Eles me procuraram desesperados. Um deles era uma pessoa que teve pedido de asilo na Inglaterra negado, mas depois casou com um europeu e obteve visto em 2010. Agora, recebe uma carta dizendo que deve deixar imediatamente o país", conta. "Ele achou que o visto tinha sido cancelado. No fim, pediram desculpas."

A base de dados do governo estaria desatualizada desde 2008, segundo advogados. "Algumas pessoas estavam em processo de legalização na época e conseguiram a permanência. Mas ainda constam como irregulares", explica a conselheira legal Lívia Suassuna, do escritório Martins Costa, com sede em Londres.

O advogado Marcelo Reale, especialista em imigração também baseado na capital londrina, diz que o momento é de rigidez contra os imigrantes.

"Em época de crise, o estrangeiro é sempre culpado. Mas esse tipo de abordagem me parece ingênuo. Quem vai receber uma mensagem e entrar em contato com a imigração dizendo que, sim, está ilegal e vai deixar o país?", pergunta.

Procurado, o Consulado-Geral Britânico informou às 15h30 de ontem que o assunto deveria ser tratado diretamente com o departamento responsável na Inglaterra. Mas, por causa do fuso horário, o Estado não conseguiu contato.

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